Um final de semana low-budget em Düsseldorf, na Alemanha

Segundo maior centro financeiro e nona maior cidade da Alemanha, Düsseldorf é dividida pelo Rio Reno e é considerada importante capital quando o assunto é Arte e Moda. A cidade está localizada ao norte das queridinhas alemãs Bonn & Colônia, e me tomou cerca de 3 horas de ônibus, saindo da Antuérpia. Senta que lá vem história!

Há dez anos, quando morei em Londres com a minha família (mãe, tia e padrasto), íamos com bastante frequência para Frankfurt, na Alemanha. Pra falar bem a verdade, a gente fazia escala lá, voltando ou indo para o Brasil, e ficávamos nas queridinhas alemãs Bonn/Colônia (sinceramente, não lembro qual delas), já que meu padrasto era nascido lá. Nunca conheci absolutamente nada da Alemanha, e é aquele ditado: se conheci, não me recordo. Porém, sempre tive um amorzinho pelo país, a história, cultura e idioma. Inclusive, quando fiz 15 anos coloquei na cabeça que iria aprender alemão: durei dois meses no curso e desisti para sempre.

De volta à Europa, resolvi que as minhas primeiras viagens por aqui deveriam ser para todos os países que eu já pisei há dez anos, mas que eu não conhecia nadica de nada. A listinha era: Bélgica – vim pra Bruxelas por um dia, uma parada rápida a caminho de Paris para passar no show da Avril Lavigne, já que havia perdido o que aconteceu alguns dias antes em Londres; França – outra parada rápida, de mais ou menos dois dias, que me rendeu uma ida à EuroDisney e um total de 0 lembranças + ida ao Louvre + rápida olhadinha na Torre Eiffel e uma vela acesa em Notre Dame; Alemanha – isso ali que falei no primeiro parágrafo; a própria Inglaterra – morei dois anos em Londres, mas mal viajei pelos arredores, ainda quero fazer uma viagem bem demorada pelo interior da Inglaterra e pelo Reino Unido ❤

Por estar morando na Bélgica em 2019, visitei algumas cidades por ali, sempre que dava, é tudo muito perto. Passei meu terceiro final de semana, depois que cheguei na Europa, em Paris – mas preciso voltar, foi quase como a primeira vez de dez anos atrás. Mas a Alemanha… ah… é tão grande, com tantas cidades, por mim que eu me mudava logo e vivia conhecendo cada pedacinho daquele lugar! Então resolvi ir para alguma cidade pequena, perto da fronteira com a Bélgica (pra não gastar muito tempo de transporte me locomovendo até lá, já que eu só tinha o final de semana) e que não me custasse muito, em termos de turismo.

Fui pra lá no meio da minha pindaíba (que durou três meses, justo os primeiros na Bélgica!), e sabia que não poderia gastar quase nada, então o primeiro passo foi escolher a cidade. A escolha da cidade foi muito aleatória. Eu simplesmente joguei no Google as cidades pequenas da Alemanha, e me apareceu: Bonn, Colônia e, no meio de algum dos mil blogs, Düsseldorf. Fiquei pensando: uke? As primeiras eu já estava careca de ouvir falar sobre. A terceira, muito agradável e muito injustiçada também, dizia o próprio blog. Escolhi essa mesmo.

Minha hospedagem em Düsseldorf

Além de querer viajar muito, queria também economizar muito e testar algo que eu tento há muitos anos: couchsurf! Me aventurei, enviei mensagens para algumas pessoas que estavam aceitando hóspedes e cruzei os dedos.

Dica para quem ainda não manja das malícia do Couchsurf: se você é mulher, está começando agora a fazer viajens sozinhas e nunca ficou hospedada em Hostels, como euzinha ainda não tinha, e também gostaria de se aventurar no sofá de algum estranho… ESCOLHA UMA MULHER!

Eu coloquei no meu filtro de buscas: mulheres – com recomendações – aceitando hóspedes. Encontrei as opções, montei uma mensagem em que me apresento claramente e fui que fui.

Nossa, mas eu não tenho coragem de fazer Couchsurf!

Eu ouço de todo mundo, especialmente as meninas aupairs e as mais novas , que não tem coragem de se hospedar na casa de um completo estranho. Pois bem, eu tenho, e além disso, tenho um conselho pra você abrir sua mente:

Sabe aqueles filmes que as pessoas se jogam no mundão, viajam, festejam, conhecem estranhos, fazem amizades pra vida, conhecem o verdadeiro amor? Nem todos são reais, e pra você conseguir fazer aquilo, no meio vai ter uns bons quilos de merda… mas acredite!

Acredite na bondade (mas não muito, taokei?) das pessoas, acredite que elas estão ali pra realmente ter uma troca de experiência, cultura, conhecer uma nova pessoa unicamente porque são generosas e gostam de dar novas risadas e conversar de novos assuntos com pessoas que podem ser apenas um hóspede de uma noite, mas que também pode tornar-se um amigo pra vida. Nós, do Brasil, temos medo.

Medo de tudo, de dar um copo de água para um estranho que toca a campainha no meio da tarde. Ou de alguém pedindo um celular emprestado no meio da rua por estar perdido. Temos medo de deixar a bolsa um segundo fora do campo de visão e, mais ainda, de colocar um estranho para dormir dentro da nossa casa. E não é para menos, nosso país está de cabeça pra baixo. Mas acredito que a mudança pode acontecer, que podemos trocar certos receios e abrir mais a mente, levar para nossa cultura essa maior confiança – afinal, não dizem que brasileiros são mega receptivos? Não vamos limitar isso só à mesa de bar quando conhecemos gringos na Copa do Mundo! – no estranho, e não ficar só babando que na Europa o Couchsurf acontece, e no Brasil não.

Aqui eu já li muitos casos de assédio, muitos casos horríveis e outros MUITOS casos ótimos. Um deles é o meu e, incrivelmente, também foi o caso positivo da primeira pessoa que a minha host hospedou – eu fui a segunda hóspede dela, risos.

A primeira (e única) pessoa que aceitou minha solicitação foi a Carolin, que foi super simpática e amigável. Logo marcamos tudo certinho e ficou combinado que eu passaria a noite de sábado para domingo lá.

Da Antuérpia para Düsseldorf de Flixbus

Comprei minhas passagens para Düsseldorf (viagem feita no final de semana do dia 22 e 23 de junho de 2019) com um código de desconto que ganhei (de uma estranha num grupo de Whatsapp) de 4 euros, o que já ajudou. Pensei comigo: vou pegar o primeiro ônibus de Zoersel para a Antuérpia (minha cidade, na época da viagem) – duração de 50min – e de lá um dos primeiros para a Alemanha, e assim aproveitarei meu lindo dia de verão! Certo? ERRRRRRRRROU.

Peguei um ônibus que chegaria no laço, mas como era sábado e nossa querida Europa vive em reforma: o ônibus não me deixou de frente para a Estação Central da Antuérpia, e sim há uns quarteirões de lá. Por conta disso, saí correndo e graças a 2 minutinhos, vi meu ônibus fechando as portas e acelerando… lá se foi ele. E lá fui eu gastar mais uns euros em uma nova passagem para um próximo horário.

Horário do primeiro ônibus (que perdi): 7:30
Chegada prevista: 10:25
Valor gasto (incluindo o desconto): 10,42 eur

Horário do segundo ônibus: 11:35
Chegada: 14:30
Valor gasto: 16,99 eur

Não apenas perdi metade do dia, mas perdi uma boa grana, risos de desespero

Avisei a Carolin, ela estava super OK! Aliás, ela combinou que me buscaria na estação.

Chegando, finalmente, à cidade, minha host me encontrou e pegamos um ônibus (VALOR) até a casa dela, para eu deixar minha mala – naquela época eu ainda usava minha mala de rodinhas, hoje eu já aprendi que só na mochilinha pra sobreviver, mermã.

Primeiro dia: o que fazer em 1/2 tarde e 1 noite em Düsseldorf

Meu anjo… se eu soubesse que seria tão fácil e rápido ver tudo o que tem de importante na cidade, eu não teria comprado a primeira passagem e teria ido direto para o segundo horário, salvando horas de sono e dinheirinhos.

Chegando em Düsseldorf, encontrei a Caro, que era uma mulher muito alta (como a maioria das alemãs) e sorridente. Desembarquei em uma “estação de ônibus” que ficava bem ao lado esquerdo, andando alguns metros, da estação principal da cidade. Eu, como boa pessoa perdida, fiquei um pouco perdida e morrendo de medo de nunca encontrar minha host… mas deu tudo certo. Andamos até o ponto de ônibus que nos levaria para a casa dela para deixar minha mala e, para a minha surpresa, ela tirou o dia para passear comigo e me mostrar tudo – amor de pessoa!

Assim como a maioria das cidades da Europa, o transporte da cidade disponibiliza a compra de uma passagem 24h, através dessa passagem você pode usar os trams (bondinhos), metrôs, trens e ônibus dentro daquele período – fique bem atento, sério, BEM ATENTO AO HORÁRIO, você vai saber porque no desenrolar da minha viagem. O valor da passagem 24h é de 7.20eur para uma pessoa, e adivinha só? A Caro comprou pra mim (é a melhor host de au pair do mundo? SIM!) com o cartão de crédito, no aplicativo do sistema de transportes e recebeu um QR Code. Moderno né? Com o QR Code em mãos, eu poderia transitar tranquilamente, caso algum fiscal me parasse, ele escaneava minha passagem e pronto. Para acessar o site oficial com todas as taxas e horários, clique aqui.

Tomei uma ducha no apartamento dela, que era uma gracinha – tudo na Alemanha é lindo pra mim, incrível – e ela me chamou para ir ao bar com ela e as colegas de trabalho, quando ficasse noite (demoraria, hein? estávamos em pleno verão!), e lógico que aceitei. Estava um calor realmente infernal, ainda bem que minhas roupas eram bem frescas… fica a dica: não pense que verão é só no Brasil, na Europa o negócio pega (e acho que pior).

E vamos de lista de lugares principais em um passeio pela cidade:

  • Altstadt (cidade antiga), é lá que está o Schossturn, a única torre que restou de um castelo, hoje é um museu marítimo. Essa parte da cidade fica às margens do Rio Reno, a vista é espetacular (e quente). A orla, que vira um formigueiro humano durante o verão, está repleta de bares e restaurantes, muita música e gente animada
  • Igreja St Lambertus: que possui uma torre mega torta, por conta de um incêndio e uma reforma mal feita
  • Rheinturn, que é uma torre de TV e observatório 360º, me parecia genial, mas a entrada custava 9eur, desisti – viagem low budget, né galera?
  • Os famosos prédios inclinados de Frank O. Gehry
  • Königsallee (), a famosa rua de butiques, a Champs Elysée da Alemanha e também a Schadowstrasse, ali perto, mas cheia de lojas para meros mortais, como a H&M, Zara…
  • Bolkestrasse, uma rua com bares colados uns nos outros, e por isso considerado “o maior bar do mundo”. Dizem que, antigamente, os bares tinham portas que os interligavam, daí que veio o título. Bebemos uma cerveja local bem famosa, a Altbier!

De trás pra frente, vou especificar o que achei de cada cantinho que passei. Começando pela experiência etílica, uma das minhas preferidas: eu adorei o conceito de uma rua cheia de bares, porque isso não é tão comum na gringa, como é no Brasil – quem nunca foi em uma cidade universitária e se viu em meio a um oceano de jovens bêbados nas calçadas, com seus respectivos litrões, sem saber qual bar exatamente eles estavam?

Algo que a Caro me contou é que a cidade está bem acostumada a receber grupos de amigos em despedidas de solteiro. A criatividade daquele povo é mara: fantasias, camisetas, cores em comum. Tanto grupos de mulheres como de homens, estavam sempre em bandos enormes e prontos para se jogar na festa em pleno verão – a melhor época do ano, para eles (só pra eles)!

No bar que estávamos, um dos mais tradicionais e antigos da rua (Kurzer), o garçom vinha até você com uma bandeja cheia de copinhos e você pagava ali mesmo, em dinheiro, de preferência moedas. Eles não são muito pacientes, então deixe o dinheiro em mãos e não enrole muito. É pá pum! Antes de chegarmos no bar, passamos em um ATM – caixa eletrônico.

Durante a bebedeira eu conversei um pouco com as colegas dela, todas alemãs, e nem todas falavam inglês. E pude colocar meu aprendizado de 2 meses de curso em prática. Cheguei e falei: eu sei uma palavra em alemão! *todos param para ouvir* “kugelschreiber” *todos riem* “Ellen, por que você sabe falar CANETA em alemão? Que aleatório”. Pois é.

Sobre as ruas das butiques… claro que não visitei nenhuma loja, primeiro porque eu não iria fazer compras, segundo porque eu não sabia quanto tempo tínhamos, e queria ver tudo que pudesse. Mas ali no meio têm um ponto ótimo para as fotos, o canal:

Para ver a torre que mencionei, você acaba passando pelos prédios inclinados e, se você andar até o finalzão da orla, encontra uma vista linda com tudo isso, ótimo para fotos também.

Se você sofre de labirintite, cuidado com esses prédios:

Além disso, você encontrará um barzinho bem chique, mas se não quiser entrar, pode ficar nas escadarias mesmo… encontrei um monge que estava sendo fotografado. Perguntamos o que ele estava fazendo ali (bem cara de pau) e ele nos contou que foi dar uma palestra na cidade.

Por fim (na verdade, o começo) as torres que mencionei. Nessa foto você consegue ter uma breve ideia de como o povo alemão curte pegar um solzinho na orla do rio. Ao fundo, a torre torta da igreja e a torre restante do castelo. E como eu sou bem aquelas “tia das plantas” versão arte, não pude deixar de ser fotografada nessa parede toda colorida.

Terminamos o primeiro dia (um pouco bêbadas, talvez) e fomos para a casa da Caro descansar. No dia seguinte (domingo) ela iria trabalhar (!) e eu ia para outra parte da cidade, visitar um castelo e ruínas de um antigo castelo da época do Império Romano.

Segundo dia: Schloss Benrath e Kaiserswerth, o perrengue e de volta para casa

De metrô, fui até a estação mais próxima do castelo e, de lá, estava esperando o bondinho que me deixaria na porta. MAS: me perdi. Então fui andando mesmo (da estação de metrô), foi uma caminhada super rápida e gostosa, assim eu vi mais a vizinhança longe do centro da cidade. Mas para você que deseja usar o transporte, e não fazer como eu:

Metrô: linhas U71 e U83 na parada Schloss Benrath
Saindo da estação principal de ônibus: RE1/RE5/S6 na parada Benrath S-Bahnhof + caminhada de 10min

A entrada do castelo é uma graça. Antes de entrar, você vai ver um canalzinho com patinhos mergulhando. Entrando no castelo, vai dar de frente para um lago cheio de outros patos, muito gostoso ficar sentada ali na beira, apreciando a vida. Também na entrada, do lado esquerdo, você encontra um café.

E vamos de História: O palácio de Benrath foi uma residência de veraneio para caça e, hoje, abriga 3 museus [valor para os palácio total: 14eur para adultos, 4eur para crianças até 17 anos, 10eur para estudantes e aqueles que pagam meia, 28eur para famílias]. Foi construído na segunda metade do século XVIII e é geralmente chamado de palácio mais bonito da região do Reno. O prédio principal (Corps de Logis) está super bem preservado, com a mobília original, e pode ser visitado com um guia [10eur adultos, 3eur crianças, 6eur descontistas] – infelizmente não fiz o passeio, primeiro pelo valor e segundo porque eu tinha mais um passeio para fazer e não poderia me atrasar para voltar pra Bélgica 😦

As outras duas partes do castelo são hoje o Museu da Arte da Jardinagem (Museum of Garden Art) e, através da visita guiada, é possível ter uma verdadeira aula da arte da jardinagem, não apenas do palácio, mas também da cidade de Düsseldorf (que é super arborizada). Lá estão vários quadros, esculturas, livros e louças chinesas, além de exibições em audiovisual para ajudar a contar da história da jardinagem.

O Museu de Arte Natural é dedicado à história da região do baixo-Reno, conta a história da alteração do curso do rio durante o passar dos séculos, a pesca, a fauna e flora regional e a floresta que cerca o palácio. Desde 2014 o Jardim de Elisabeth, que é uma hortinha, mostra as ervas e vegetação naturais da região e busca alertar sobre a necessidade de preservação da biodiversidade.

[Valor de cada museu para: 6eur adultos, 3eur crianças, 4eur descontistas]

Agora, vamos para a parte que eu pude realmente conhecer: os jardins! E o melhor de tudo: grátis! Os jardins são gigantes, deve ser mais de 10 vezes maior do que o espaço das construções. E é um verdadeiro labirinto. Tem lagos, campos, hortas, parquinho para crianças, tem de tudo, inclusive espaços super românticos para pedidos de casamento (presenciei um). É um passeio gostoso para fazer com alguém, conversando e apreciando. Sozinha eu fiquei igual uma barata tonta, e estava muito quente, então cada vez que me perdia no labirinto, em busca de sombra, eu entrava um pouco em desespero. HAHAHA mas valeu a pena!

Depois de lá, peguei mais um transporte em direção às ruinas, ao norte da cidade, que é uma das regiões mais antigas dela. Um tram me deixou no ponto mais próximo. Desci uma rua principal de um bairro mais afastado – que mais parecia uma cidadezinha independente – e… me perdi. Alguns minutos depois, o Google Maps finalmente me colocou no lugar certo: uma trilhazinha. E cheguei ao meu destino: mais um passeio 100% grátis. Esperava encontrar mais turistas, mas pra minha sorte estava bem tranquilo, fácil de fotografar sem muita gente no fundo, inclusive.

O Kaiserswerth são ruínas do século X do Império Romano, dizem que o castelo até estava inteiro, até a população começar a pegar parte dele para construir suas próprias casas. Foi construído para servir de ponto temporário do Império Romano e, graças à posição estratégica (na beira do Rio Reno), foi tomado por diversos povos durante os anos, como os holandeses e os espanhóis. O legal é que, mesmo em ruínas, dá pra ver bastante do que restou: parte da cozinha, de salas, subir para o segundo andar com as escadas intactas, e dar uma bisbilhotada nos porões (esses estão de portões fechados, mas eu coloquei a cabeça lá dentro). A vista é maravilhosa!

Escontrei algumas pessoas fazendo fotos de cosplay, um belo cenário, realmente.

Depois dessa voltinha, fui para a estação central, a caminho da casa da Caro, buscar minhas malas para ir embora. Mas aconteceu o que eu não esperava: enquanto eu estava no metrô, minha passagem 24h expirou e, ao chegar na última estação (que azar), um fiscal pediu para escanear meu QR Code.

Eu não tinha a menor ideia de que estava vencido, então mostrei na maior tranquilidade (até porque eu não tinha outra opção), eram uns 5 fiscais por vagão, bizarro! Ele, que não era alemão (se fosse eu já teria me borrado ali mesmo, morro de medo de alemães), falou tranquilo comigo que havia expirado. Eu, na inocência, respondi: tudo bem, posso pagar por outra passagem então. O Inglês do moço não era bom, e ele pediu um documento de identificação. Nessa hora eu comecei a ficar nervosa: 1- não podia perder tempo, se não eu perdia meu ônibus 2- ele estava enrolando muito, eu só queria pagar logo e ir embora, por que essa enrolação? 3- eu tinha deixado meu passaporte na casa da Caro, esqueci dos que eu tinha na carteira. Me enrolei toda, e ele pensou que eu era ilegal, e disse para eu acompanhar ele até a delegacia!!!! “Você não pode andar por aí sem documento”, ele disse. Até que lembrei que tinha uma foto do meu passaporte no celular. Mostrei e voltamos ao ponto inicial: minha passagem. Demorou um tempo até ele me explicar com todas as letras que eu não poderia comprar uma nova, mas pagar uma multa por estar “sem passagem”.

Fiquei em choque, primeiro porque eu não estava. Digamos que eu tivesse uma passagem unitária: se eu tivesse entrado 16h na catraca, ela seria validada para a viagem, até que a viagem chegasse ao fim, certo? Eu entrei às 16h, mas às 16:20 a minha passagem (24h) estava expirada e ele não estava nem aí que eu entrei enquanto estava válida. Eu teria que pagar nada menos que 60eur! Detalhe: eu nem tinha 60eur. Quando eu digo que minhas viagens são low budget, eu tô falando bem sério!

Em completo desespero, insisti e chorei (literalmente) pra que ele deixasse eu comprar outra passagem 24h, eu tive que mostrar minha conta do banco e provar que eu realmente não tinha dinheiro, deu até pra ver a cara de pena do moço. Ele aceitou, mas ele não tinha troco e nenhuma loja da estação quis trocar. Em meio ao desespero, consegui respirar e pensar, então ele sugeriu que eu comprasse a passagem unitária, assim eu usaria as moedas que eu tinha. Enquanto ele estava imprimindo meu recibo (olha a modernidade! Quando que o cobrador de ônibus imprime recibo no Brasil?), um colega fiscal dele chegou e perguntou o que estava acontecendo. Em uma língua que não identifiquei, ele contou, mas o colega não foi nada legal: tirou um bolo de dinheiro do bolso e falou: 60eur! E eu respondi (mais sem paciência do que desesperada): eu não tenho 60eur! E o abusado disse: isso é um problema seu, não meu. TÁ TIRANDO? NÃO ACREDITO QUE VAI COMEÇAR TUDO DE NOVO! Mas aí eu respirei, de novo, e falei pro fiscal-bonzinho: você disse que estava tudo bem, fala com seu amigo. E o fiscal-bozinho falou pra ele me deixar em paz.

Nisso o fiscal-estúpido perguntou de onde eu era, falei que morava na Bélgica. Ele, espantado, respondeu: mas você não é belga, né? “Não, sou brasileira”, e aí ele olhou com uma malícia que eu só não comecei apavorar, porque eu já estava em uma posição não muito favorável.

Com o recibo em mãos, agradeci muito e saí correndo KKKKKKK eu estava morrendo de medo. Foi horrível! Comprei passagens unitárias pra pegar o ônibus/trem para a Caro, com ajuda de outros fiscais, e fui chorando mandando áudios pra todos. Quase me perdi de novo, mas peguei um trem certo, por um milagre. Chegando lá, me perdi pra ir da estação até a casa dela, e ela teve que me buscar no caminho. Tô falando, eu sou a pessoa que mais se perde no MUNDO!

Contei da aventura e ela disse que já foi multada também, nada de novo sob o sol. Peguei minhas malas, deixei uma caixa de chocolate belga pra ela na mesa, e fui de ônibus para a estação de ônibus pegar meu Flixbus. Ele chegou no horário certo, voltei pra casa em paz, finalmente!