Au Pair: Bélgica x França?

Pra quem me conhece, não é segredo que eu sempre quis aprender o máximo de línguas e conhecer o máximo de países e culturas possíveis. Ainda na Universidade, comecei a estudar francês no penúltimo semestre, na esperança de aprender algo antes de tentar uma pós/mestrado na França. Mas é claro que aprender uma língua não é tão rápido e fácil assim (ainda mais se você for um pouco preguiçosa, como eu era), e acabei fazendo apenas um semestre do curso – eu fazia o curso oferecido pela própria UEPG, o “Clec”, que é um curso voltado para toda a comunidade (acadêmica ou não), ensinado pelos alunos de Letras. Eles têm a opção de vários níveis da língua espanhola, francesa e inglesa. Também fiz um ano de inglês, pra refrescar minha memória com a gramática, mas não foi muito útil porque eu sempre ia pelo instinto e não estudava, rs.

Quando então decidi fazer Au Pair e aprender uma língua, é óbvio que a primeira opção era me mudar para a França. A França é charmosa: a comida, a língua, a música, a arte, a moda, as parisienses… tudo chama a atenção. Eu já me imaginava aprendendo a língua e andando por aí com um batom e boinas vermelhas, comendo croissant e entendendo tudo o que o filme da Amelie falava, sem legendas.

Assim como para qualquer país fora dos EUA, o primeiro passo para procurar uma família é buscar no site AuPairWorld.com. Criei uma conta ainda no início do último ano da faculdade, só para testar como funcionava, dar uma olhada no fluxo de famílias da França e ver se alguém tinha interesse em mim, mesmo que eu não fosse para o país ainda naquele ano (2018). E essa é minha primeira dica, com base na minha experiência: não tranque a faculdade para fazer o intercâmbio.

  • Você não vai ser formar com a sua turma original. Não liga? Ok, leia o próximo motivo
  • Se você for como eu, vai ser bem bad… imagina só sair da facul, viver um lindo sonho internacional e se dar super bem lá? Quando chegar ao fim do intercâmbio, você vai precisar trancar tudo pra voltar à sua rotina
  • Não liga? É só pra aprender a língua? Ok. Então vai, anjo, mas não diz que não te avisei

No início de 2019 comecei a procura real oficial. E não estava nada fácil de encontrar famílias na cidade que eu queria tanto morar. E adivinha qual cidade? Paris, claro. Hoje penso que os dois maiores motivos são: não falo francês (o que facilitaria a comunicação com crianças/famílias que não buscam por Au Pairs para ensinar inglês dentro de casa) + janeiro é o meio do ano letivo europeu (e americano), então essas famílias, na maioria dos casos, já estão com uma Au Pair cujo contrato irá acabar com o fim do ano escolar… lá pra julho.

Enfim, encontrei uma família em uma cidadezinha chamada Blois. Pensei: maravilha! Apenas 2h de ônibus de Paris, dá pra ir sempre, uhul! O feeling bateu logo na primeira entrevista por Skype. A família era bem comunicativa e amigável: pai, mãe, um cachorro, uma filha de uns 14 anos, uma de 12 e um de 11, algo assim, nessa faixa etária. Os dois últimos filhos eram adotados do Quênia. Meu trabalho seria acompanhar os dois mais novos nas atividades extra curriculares e fazer companhia, já que eram pré-adolescentes e não necessariamente precisariam de uma “babá”. Eles não falavam inglês, só a mais velha, mas cada um deles tinha algo em comum comigo: a menina mais nova jogava handebol; o menino era super ligado em esportes também, e extremamente carinhoso e educado.

Euzinha sorridente em Paris

Os pais também eram gentis. Parece bobeira, mas se nos primeiros Skypes a família se quer faz seu coração se derreter (mesmo que seja falsidade, gente), sinal bom não é. É o mínimo que você precisa exigir de pessoas com quem você vai, literalmente, compartilhar boa parte da sua vida durante o próximo ano. Então, depois de conversas e risadas, praticamente fechamos o match. Aí é que veio o problema… eu fui 100% inocente. Eu seria a primeira Au Pair deles, então no início imaginei que era inocência da parte deles também, mas no fim percebi que a única boba era eu.

No caso, eles queriam enviar o contrato antes mesmo de conversarmos assuntos muito importantes como: qual será o pocket money? Irão pagar meu curso de francês? Irão pagar pelo transporte para o curso de francês? O curso é reconhecido pelo consulado para me permitir renovar o visto por um segundo ano na França*? Poderei pedir minhas comidas vegetarianas/produtos de higiene pessoal na lista de mercado da família? Quantas horas serão trabalhadas, onde está o schedule? Se eu fizer horas extras, irão me pagar quanto?

Se você pensa que está sendo babaca de fazer essas perguntas “nada delicadas”, você está erradx. Eu pensei, e eu me lasquei por isso. Gente, ninguém é bobo, todos sabem que isso é um trabalho, você está indo cuidar das crianças da família não porque você gosta de fazer caridade, mas porque precisa desse dinheiro para alguma finalidade: mandar para o Brasil, juntar para estudos, viajar, comprar brusinhas… não importa, você não deve ter vergonha de perguntar pelos seus direitos, a família é que deveria ter de ficar omitindo isso e depois achando que está te fazendo um favor.

Finalmente, fui soltando essas perguntas por mensagem e, como tudo na França, até para responder uma simples mensagem demoraram. Foi mais de um mês para correrem atrás de coisinhas que em menos de uma semana no Brasil seriam resolvidas… ô povo lento!

No fim, descobri que era bem carinho pra ficar saindo da cidadezinha até Paris, então lá iria todo o meu salário só em condução. Além disso, eu estava ainda sob a lei antiga, que mudou cerca de um mês depois que eu comecei a conversar com a família. Na lei antiga, eu deveria receber no mínimo 60e por semana e trabalharia 25h/semana; além disso, o curso deveria ser reconhecido pelo Campus France – que era parte do processo, antes de chegar no Consulado e pegar o visto – e, geralmente, esses eram os cursos mais caros, pagos por trimestre. Minha família queria pagar o mínimo, não iriam pagar pelo curso, não iriam pagar pelo transporte, muito menos por qualquer documentação. Iriam permitir minha lista de supermercado e sim, eu faria horas extras, e receberia dias de folga equivalentes. Aí é que vem a pergunta: o que eu vou fazer com pouco dinheiro e muita folga? Ir a falência, provavelmente. Comecei então a luta incessante para que eles pagassem pelo menos o transporte e aumentassem o pocket money. Eles negaram. A Lei mudou, tiveram que pagar exatamente pelo valor que eu pedi, rs. Aceitaram pagar o transporte, mas só!

Se quiser saber tim tim por tim tim como funciona o processo para ser Au Pair na França com a mudança da Lei, dê uma olhadinha no blog Dendê na Gringa, clicando aqui.

Porém a teimosia deles e a lerdeza para irem atrás era tanta, que foi me dando um bode, um estresse… resolvi que não iria mais para aquela família. Já estavam abusando da minha boa vontade antes de iniciar o processo, imagina quando eu chegasse lá?

Outro fator que contribuiu, é que, enquanto estava loucamente procurando por famílias em Paris, eu também estava procurando por famílias em Bruxelas, capital da Bélgica. Bruxelas fala francês, então…

Eu estava em um grupo de oferecimento de famílias no Facebook o Au Pair in Belgium; além do grupão de brasileiras na Bélgica, que vez ou outra também coloca anúncio de famílias para ajudar quem quer encontrar uma, o Brazilian Au Pairs in Belgium. No meio dessa brincadeira de atirar para todos os lados, mandei por inbox o meu perfil para uma família belga, que só me respondeu muito tempo depois, justo quando eu já estava de saco cheio da família francesa. Parece que caíram do céu. Ofereciam muitos benefícios, mas tinham dois defeitos: não estavam na parte de língua francesa, e sim próximos da Antuérpia, a parte flamenca, que fala holandês. Além disso, não seriam apenas dois pré-adolescentes fáceis de cuidar, mas três crianças: um bebê e duas meninas novinhas.

Tratei os benefícios com mais peso e resolvi que sim, fecharia com eles. Mas foi mais um questão de desespero para sair logo do Brasil do que qualquer coisa, pra ser bem honesta. Eles pagariam metade de toda a documentação para a Work Permit (permissão de trabalho), visto e passagens + metade do valor do curso de holandês + o transporte para o curso + o meu celular. Pensei: uau, tirei a sorte grande!

Euzinha sorridente em Brugge, uma cidadezinha fofura da Bélgica

Diferente da França, em que o pocket money mensal fica em 320e, na Bélgica recebemos 450e, fora o plano de saúde da família, que por Lei deve nos incluir, e os benefícios que variam de família para família. Outra grande diferença é que na França, com a nova Lei, o trabalho é de 25h semanais, e na Bélgica 20h. Mas é claro que nem tudo são flores e praticamente nenhuma família cumpre as 20h semanais… acontece que as horas extras são pagas, ou recebidas em forma de dias de folga.

Na minha família, acordei trabalhar 25h semanais e, caso passasse disso, poderia escolher dias de folga ou dinheiro. Além disso, eu teria durante o ano o direito de 15 dias de férias remuneradas.

No fim, vim para a Bélgica com o visto de turista, pois a família precisava de mim o quanto antes, já que a Au Pair deles estava com o visto para vencer. Assim como eu, todas as Au Pairs anteriores fizeram o processo entrando no país como turista e aplicando para a documentação daqui: errado, não é, mas não é ideal, e nem do agrado da Imigração.

Se você vier para a Bélgica como turista e quiser aplicar para o visto daqui, tenha em mente:

  • O visto de turista tem duração de 3 meses para o território Schengen, que abrange 26 países (meu, é muito país!) da Europa, ou seja, não adianta sair da Bélgica e voltar, o visto não será “reiniciado”
  • Você tem o período máximo de 3 meses para: ter todos os documentos exigidos pela prefeitura local (na minha: antecedentes criminais apostilados e traduzidos + diploma traduzido + certificado de um médico belga comprovando que estou saudável para trabalhar + cópia do passaporte) e aplicar para sua Permissão de Trabalho; após ela chegar, você deve imediatamente aplicar para o pedido de visto tipo D, e então aguardar sua ID chegar
  • Algumas famílias são tão lerdas como famílias francesas e perdem a noção de tempo, demoram para solicitar os documentos e o período de 3 meses não é suficiente. Nesse caso, ou você sai do território (volta para o Brasil, vai para algum outro país que você possa ficar legalmente durante o período dos documentos saírem…), ou você acabará ilegal, e sem a menor chance de aplicar para o visto, além do risco de ser deportadx
  • Dependendo do tempo que a sua Permissão de Trabalho demorar a ficar pronta, você pode ter bem pouco, ou nada, de tempo para continuar no país após o seu 1 ano de Au Poor. No meu caso, demorou pouco menos de 1 mês, então me restou pouco mais de 2 meses para continuar no território Schengen após dia 12 de maio de 2020 (data em que a Permissão termina)
  • Após 3 meses como turista no território, você deverá sair imediatamente e só poderá retornar após, no mínimo, 6 meses

Trarei em tópicos objetivos outros motivos legais para vir para a Bélgica (apesar de ainda amar a França. FRANÇA, VOCÊ É TUDO PRA MIM!!!):

  • A burocracia lenta existe, isso deve ser algo natural de europeus, mas não é tão lenta quanto na França!
  • É menos complicado, segundo relatos de coleguinhas na FR, aplicar para o visto de Au Pair estando na Bélgica do que estando na França
  • O pocket money é 130e maior do que o da França
  • O sistema de saúde belga é melhor, mais rápido e, para nós, garantido pelo plano de saúde particular da família – enquanto na FR você deve esperar sua carteirinha “de saúde pública” chegar, e já ouvi casos de uma demora de nada menor do que 11 meses
  • A Bélgica está estrategicamente bem localizada, geograficamente falando, é bem barato viajar saindo daqui – tanto de ônibus, quanto de avião ou trem – e faz fronteira com vários países: Alemanha, França, Holanda, Luxemburgo
  • É um país que fala três línguas: holandês, francês e alemão. Mas cada uma em uma região

Mas como eu gosto de reclamar, aí vão alguns poucos motivos para não querer vir para a Bélgica:

  • A região flemish, ou seja, a região que fala holandês, é a parte mais rica e, consequentemente, a que mais têm famílias com Au Pairs. Isso não é coincidência, é a região liberal e de direita da Bélgica – eu não tinha parado para pensar ou pesquisar sobre essas questões políticas porque, além de detestar falar de política (a não ser que você me convide para xingar o Bolsonaro, aí eu vou), eu tinha a fantasiosa ideia de que na Europa tudo era perfeito e comunista KKKKKKKK ALOKA
  • Nessa mesma região as pessoas são PORCAS. Sim, elas são muito nojentas. Para lavar louça, fazem igual em desenho animado: fecham a pia com o ralo, enchem de água e sabão e lavam tudo ali naquela água: sem enxaguar. Além disso, não tomam muitos banhos, e não importa se é verão ou inverno, tá meninas?
  • Eles são mais frios. Então se você, assim como eu, é aquela pessoa carente, e que gosta de conversar, socializar, rir feito uma boba alegre… vai se dar mal aqui assim como eu. Povo aqui está pra poucas ideias. Sem risadinha, mermão.
  • A língua deles é uma mistura de alemão com álcool. RISOS. Eu aprendi isso no final de semana que fui para a Alemanha, eles adoram zombar que holandês é uma pessoa falando alemão enquanto está bêbadx. E é mesmo, língua feia, viu? E olha que eu acho todas as línguas a coisa mais linda do mundo…
  • Estamos longe da Itália, ao contrário de quem está na França… então é bem carinho viajar pra lá

Bom, acho que é isso por enquanto. Se quiser saber mais sobre a minha experiência como Au Pair na região flemish, aguarde os próximos posts… QUEIMAAAA QUENGARAL!