Não sei se podemos afirmar esse post como um roteiro. Eu li alguns blogs de viagem e segui o meu querido Google Maps, no meio do caminho uma amiga nos levou para outros cantos paralelos, mas ainda preciso incrementar esse rolê. Mas vamos lá:
Como nosso dia começou meio tarde, lá para as 14h, deixamos de ver muita coisa que poderia ter sido vista. Motivo: ressaca da Belgian Pride na noite anterior #prioridades.
Iniciamos nossa turistada pela Galeries Royales St. Hubert(ou Galeria do Rei), uma galeria muito charmosinha, construída entre 1846 e 1947, e uma das primeiras galerias comerciais da Europa. No início dos tempos, a galeria era de acesso restrito dos burgueses safados que se esbanjavam nos cafés, butiques e até no teatro dentro da galeria. É toda coberta por uma cúpula de cristal, possui 200m de comprimento e conecta duas áreas da cidade: Grand Place e Monnaie.
Até então eu só havia entrado em uma chocolateria tradicional belga, em Antuérpia, então fiquei abobalhada dentro da La Belgie Gourmande, uma das muitas lojas dentro da galeria. Outras lojas de chocolates finos, e mega caros, também podem ser encontradas por lá, e os chocolates são vendidos, também, por grama.
Dali seguimos em direção a um ponto muito importante: um beco de cervejarias, que fica na Impasse de la Fidélité/Getrouwheidsgang . Pelo que entendi até agora, são várias cervejarias com o nome Delirium, um dia eu entendo a diferença delas e atualizo esse post. Fomos na mais famosa delas, que já recebeu um Guinness pelo maior cardápio de marcas de cerveja do mundo, vindas de mais de 60 países – incluindo o Brasil!
CERVEJA PRA DEDÉU. Objetivo: voltar lá vezes o suficiente pra beber uma de cada.
O bar é bem turístico, enquanto eu esperava pela minha cerveja no balcão, conheci um espanhol que havia morado em São Paulo e um brasileiro que agora mora na Bélgica. Ouvi muito português em todos os cantos, mas tem gente do mundo todo. O teto é todo coberto com logos de marcas de cerveja, as mesas são barris enormes e o banheiro é bem underground. O ambiente é bem bom, poderia ter passado a tarde toda ali… acho que esse é o objetivo.
Como boa aupoor que sou, pedi a cerveja mais barata do cardápio. E como boa pessoa fraca, foi o suficiente pra saber que se eu bebesse 2 eu teria ficado bêbada.
De volta ao turismo tradicional, voltamos para a Grand Place, a praça principal da cidade, que hospeda prédios históricos: Hotel de Ville, a Prefeitura (construída em 1459 e único prédio que não foi destruído durante os bombardeios franceses de 1695), Maison du Roi (Casa do Rei, construída em 1536 e reformada em 1873), Maison des Ducs de Brabant, Le Pigeon, Le Renard, Le Cornet e Le Roy d’Espagne.
Um dos lados da Grand Place, cheio de turistas, mas muito tranquilo de andar e tirar umas fotos bem blogueirinha
Bombardeio de waffles, principalmente na ruela entre a Grand Place e o Menneker Piss. Comprei um desses por 8 euros, valeu a pena!
Andamos até a famosa escultura do menininho que faz xixi, o Manneken Piss, que estava rodeada de turistas asiáticos, é claro. A escultura em bronze, com apenas 61cm de altura, é o símbolo do país, em termos de turismo, mas realmente deixa a desejar… tipo, é um menininho pequeno fazendo xixi, só.
A história por trás do “Pequeno Mijão” (sim, essa é a tradução real oficial) vem do século XVI, quando a escultura foi feita pelo arquiteto e escultor flamenco Jerôme Duquesnoy, também conhecido como Hieronymus Duquesnoy. O Menneken Piss foi originalmente batizado de Petit Julien (Pequeno Julien), e o nome que conhecemos hoje surgiu “só” em 1452. Existem algumas fábulas por trás do suposto surgimento do símbolo belga, que descobri nesse site aqui:
Foi um retrato baseado nos muitos garotinhos que faziam xixi nas fontes da cidade de Bruxelas
Foi uma homenagem a um garoto chamado Julien que salvou a cidade de inimigos que atearam fogo, como? Fazendo xixi nas primeiras chamas e evitando um grande incêndio
Uma bruxa pegou um menino fazendo xixi em frente à porta dela, então amaldiçoou o garoto a fazer xixi pelo resto da vida dele – antes que ela pudesse perceber, um homem colocou uma estátua no lugar do garoto humano
Em outra versão, a bruxa jogou o encanto no menino e o transformou em pedra
Os pais de um menino perderam o filho durante um festival na cidade e o encontraram, alguns dias depois, fazendo xixi em uma esquina. Então, o pai, que era um mercador, resolveu colocar uma estátua em homenagem ao filho bem ali, onde o encontrou
O menininho supostamente é o Duque Godfrey III da cidade de Leuven, que teria fugido para brincar com outras crianças na capital do país
Em outra versão, o pequeno Godfrey, dentro de um cesto, foi pendurado em um carvalho durante uma batalha entre dois reinos, e de vez em quando fazia xixi na cabeça dos inimigos
Bom, são algumas piras essas daí, com certeza se você pesquisar mais a fundo, descobre mais algumas invenções ou versões do pequeno mijão de Bruxelas. Agora, voltando aos fatos históricos: a estátua de bronze foi colocada ali entre 1618/1619 e em 1817 foi destruída, encontrada novamente e feita uma réplica (a que conhecemos hoje).
Hoje o menininho, que já foi roubado 4 vezes, tem um guarda roupa com mais de 800 trajes, que o vestem em ocasiões especiais. Tá melhor que eu KKKK.
Visto essa partezinha do centro da cidade, demos uma volta em direção ao Elisabeth Park mas, como o tempo estava passando, tivemos que abortar a missão e voltar pra casa buscar as malas, ou perderíamos os ônibus de volta 😦
Ainda preciso fazer muito turismo por Bruxelas, ver a Janneken Piss (a Menina Mijona) e também a versão em forma de cachorro, além dos museus, igrejas e ruelas pelo centro… Bruxelas é uma cidade linda, muito gostosa de bater perna, bem Europa. Gostaria de ter ido pra lá, ao invés da Antuérpia, ainda mais porque falam francês, e não holandês (apesar de estarem no território flamenco do país -vish, é uma treta, porque o pessoal flamenco acha um absurdo eles estarem falando francês e não holandês), mas é aquele ditado: vamos fazer o que?
Desde o dia em que cheguei na Bélgica, ainda não tinha tirado um final de semana para turistar na capital do país. Apesar de ser relativamente perto de onde moro (tudo aqui é perto, na verdade), gostaria de ter um final de semana todo para explorar, bater perna e realmente conhecer. Mas nessa ânsia toda por estar finalmente de volta à Europa, fui viajando, inclusive para Paris, mas não para Bruxelas.
Outro ponto importante de eu não ter ido ainda era o fato de não ter conhecidxs na cidade, já que meu orçamento de aupoor é apertado, a ideia é viajar para cidades e países em que alguém possa me hospedar, um gasto a menos.
Em um dia olhando meu feed do Instagram, me deparo com um post patrocinado. Tratava-se de uma propaganda da PrideParade, a parada do orgulho LGBT+ da Bélgica, que aconteceria na capital, dia 18 de maio. Imediatamente tentei procurar alguém que pudesse me abrigar, no grupo de brasileiras na Bélgica do Whatsapp, sem sucesso. Convidei minha amiga Paola, que também é aupair (só que na Holanda) para ir comigo, porque além de não querer ir festar completamente sozinha ou com estranhxs, poderia ser uma companhia pra dividir um Airbnb.
Percebi que nessa vida de aupair nos deparamos com uma constante solidão. Estamos realmente sozinhas no mundo, no mundo mesmo. Estou a mais de 10 mil KM distante de casa, não conheço absolutamente ninguém no país em que vivo, além de estar morando na casa de completos estranhos. Em meio a isso, me encontro sempre desesperada por companhia fácil, chamando quem estiver disponível para dar uma turistada, festar, passar um final de semana fazendo qualquer coisa. Por um lado é incrível, conheço gente, lugares, jeitos e culturas – tanto brasileiras, quanto do novo lugar que estou explorando – é uma baita experiência. E por outro, percebo tópicos que preciso melhorar em mim, como essa noção maior de se adaptar e aceitar criações diferentes, jeitos e formas de lidar com situações.
Um amigo me disse, e é verdade: a gente só conhece alguém quando viaja junto. Nada melhor para testar uma amizade do que passar uns perrengues, uns apertos, horários apertados, planos que não batem, estresse por cansaço e fome, estar perdido em um lugar desconhecido etc. E por esse motivo é que chamei a Paola para ir comigo na Parada. Além de conhecer ela da UEPG, eu conheço ela dos rolês da UEPG… rsrs
Eu sabia que poderíamos loquiar a vontade, sem julgamentos por estar virando uma garrafa de vinho, e que as risadas eram garantidas.
Outra coisa que estou percebendo, enquanto escrevo isso, é que na minha nova vida, pequeninas coisas podem ser analisadas de forma tão minuciosa (como o fato de ter chamado uma colega de faculdade para viajar), que ela se torna um grande auto aprendizado.
Filosofias a parte, a Paola aceitou de primeira. Procurei um Airbnb, e começamos a buscar passagens.
Planejando a viagem
Na Europa o uso do trem é simplesmente top. Tem trem pra todo lado, é rápido, é ecofriendly, é confortável mas… é caro! Não tão caro assim, mas ainda sim, é caro. Nos blogs de viagem, todos viajam de trem, é uma maravilha. Mas na vida de aupair isso não é tão possível. Pensando nisso, eu em toda a minha genialidade resolvi que não iria de trem para Bruxelas, e sim de FlixBus!
Comprei a ida e volta feliz da vida. Estava estreando meu cartão recém chegado e achando que tudo estaria top.
Falando nisso, se você mora na Europa e vai pedir um cartão de débito, usa meu código do N26, clicando aqui. Eu ganho e tu ganha, em euros, tá meninas?
Reservei o Airbnb mais barato que encontrei, próximo ao local da concentração da Parada e estava aguardando a confirmação da anfitriã. No dia seguinte da reserva, ela manda uma mensagem dizendo que aquele quarto em questão não estava disponível, mas tinha outro, mesma casa, mesmo valor, e se eu estava interessada. Disse que se era tudo meio igual, tranquilo. Mas no aplicativo tem uma função em que sua solicitação expira dentro de um período, se não me engano 48hrs. Faltavam poucas horas para expirar, e nada da anfitriã confirmar.
Expirou. Encontrei outro quarto, em outro endereço, com valor igual. Então reservei, foi aceito. Maravilha! Nisso, a anfitriã mandou mensagem falando que sim, seria tudo igual, e eu respondi: too late.
Caso você queira se hospedar no mesmo apartamento, clica aqui. A cozinha não era muito limpa, mas a gente conseguiu fazer nosso rango, dormir bem e tomar um bom banho. Custo x Benefício check. E caso você queira um desconto na primeira hospedagem, usa o meu link.
Chegou o dia da viagem. Mas como na minha vida nem tudo são flores…
Minha hosta viajou, era aniversário dela e o hosto deu uma viagem para que ela passasse o final de semana na Espanha com a melhor amiga. Por conta disso, tive que ajudá-lo a preparar o jantar. Aqui em casa, tudo funciona no horário certinho. Ás 17:30 a hosta começa a cozinhar e, no mais tardar, 18:30 estamos todos na mesa comendo. 19h as crianças estão de pijamas e às 19:15 uma delas já está indo para a cama – bem cedo, eu sei. Confiei que o horário permaneceria o mesmo. Meu ônibus para Bruxelas era às 20:40, saindo da Estação Central da Antuérpia. Se eu saísse 19:30 de casa, daria tempo de pegar o ônibus e tudo sairia bem.
Mas meu hosto cozinha devagar! Além disso, ele quis curtir o momento e começamos a beber uns bons drinks enquanto a gente cozinhava e ouvia funk – eu obriguei ele a ouvir minha playlist. Atrasamos todo o jantar. Eu saí meio embriagada de casa, espero que ele não tenha percebido. Ainda no ponto de ônibus, já tinha aceitado a derrota: menos 4 euros, perderia o busão.
Chegando vinte minutos atrasada, às 21h, realmente perdi. Entrei na Estação, comprei um ticket de trem por 6.60 (one way) e fui rapidão, bem mais rápido que de ônibus. Em 20 minutos estava na Estação Central de Bruxelas – o que demoraria 50 min de ônibus, chegando na Estação Norte. Como boa pessoa perdida que sou, não sabia nem o que fazer a partir dali.
Era sexta-feira a noite, estava indo em direção à casa de uma das meninas do grupo que ofereceu me hospedar por uma noite. Eu resolvi ir na sexta-feira porque queria bater perna e fazer a sobrancelha em um lugar lá por Bruxelas no sábado de manhã #prioridades. Conheci um moço boliviano que me ajudou a comprar a passagem e a chegar até a linha certa do metrô.
Curiosidade: em algumas estações de Bruxelas, como na central, não existem catracas. Você pode meter o famoso loko e simplesmente não comprar um ticket – e correr o risco da fiscalização te pegar, ou comprar a sua passagem com moedas ou cartão de crédito nas máquinas. Porém, quando você chegar ao seu destino, para sair da estação você também precisa da sua passagem. É uma forma de controlarem se você realmente pagou… pode ser que não tenha precisado na entrada, mas para a catraca abrir para você, você precisa da passagem.
Cheguei bem fácil até a casa dela. Fui recebida pelo flatmate brasileiro, que estava saindo, e fiquei descansando até eles voltarem de um bar. Assim que eles voltaram já começamos a conversar sobre a festa do dia seguinte e imediatamente me senti aliviada por ter conhecido pessoas normais nesse continente.
Na manhã seguinte não tive condições físicas de levantar cedo, como eu havia planejado. Comprei a passagem de 24h que te dá acesso aos trens, ônibus e metrôs da cidade (7.50 euros), se eu tivesse me ligado, teria comprado antes e economizado no single ticket (2.10).
No Google Maps, o trajeto da Pride Parade foi todo marcado com um arco-íris, muito lindo!
Depois de dar um jeito nas minhas sobrancelhas em um salão indiano 0 defeitos que me cobrou apenas 5 euros, fui em direção ao endereço do Airbnb. Era longe, mais do que imaginei. Passei pela estação que dava início à Parada e, para minha surpresa, não apenas a placa do metrô foi redecorada com a bandeira de arco-íris, mas na praça principal da cidade e nas ruelas ao redor todos vestiam acessórios coloridos, usavam bandeiras e os outdoors anunciavam o início da Pride Parade 2019. Que diferença, né @bolsonaro?
Que sufoco, mano: eu não falo francês Duolingo, te odeio e as pessoas não falavam nada de inglês. Como tudo nesse país é antigo, tudo está sempre em obra/reforma, e foi assim que me ferrei: estava seguindo o Maps para encontrar o ponto de “tram” que me levaria até o Airbnb. No desenho, esse tram parecia um bonde, um ônibus… algo que eu pegaria em cima da terra, ao contrário do metrô. Então fui andando, e nunca chegava, parei num mercadinho indiano e eles não sabiam me dar as informações. Falando assim, parece que foi coisa rápida, mas eu estava com uma mala pesada (levei comida pra dedéu e 2L de água, economias), calor, um sol do capeta e vários casacos, andando há mais de meia hora super perdida. No fim, encontramos um moço que falava inglês e ele disse que aquele tram era realmente um bondinho, mas pegava igual metrô, na estação literalmente ao lado da entrada do mercadinho.
Algumas horas mais tarde, minha amiguinha chegou, nos arrumamos bem garoutas, com muito brilho e pouca roupa, e fomos festar.
A Pride Parade
A parada em si é bem tranquila, até diria vazia. Não é um carnaval, como todas as festas de rua no Brasil. Um ambiente bem família, com pessoas seguindo o fluxo, enquanto nas laterais, em cima das calçadas, outras assistem, cantam, fotografam. Vi crianças, idosos, muitos casais hetero. Nas ruas ao redor, os bares bombavam de gente bebendo muita cerveja (até agora não vi a galera bebendo vodka por aqui), cantando, ouvindo música eletrônica no talo. Em algumas partes da cidade, algumas ilhas com DJs e a galera concentrada.
Chegamos mais de 2h atrasadas, bem no fim do trajeto. Nesse fim, haviam algumas barreiras com seguranças inspecionando garrafas de vidro, que eram proibidas. Fomos seguindo o fluxo e entramos em um espaço com um palco enorme, bem no centro da cidade, no Mont des Arts. Ali aconteceriam os shows da noite – como podem perceber, eu estava sabendo um total de nada da programação.
Além do palco, haviam alguns stands do Governo Belga, distribuindo ecobags, bandeirinhas, panfletos e, a melhor parte, um stand enorme do Ben & Jerry’s distribuindo bandeiras e sorvete grátis. Comemos muito sorvete, e que sorvete!
É aquilo né meninas: tem sorvete de graça? Comemos. Tem bandeira de graça? A gente pega. Tem ecobag? A gente pega também! Fora que é uma gracinha. Nesse caminhão, as pessoas estavam tirando fotos temáticas, ficamos na fila mas, por conta da chuva, a eletricidade bugou tudo e no fim só ganhamos a bolsinha mesmo.
Saímos por uma das barreiras em busca de algum mercado nas redondezas, afinal a gente precisava de um pouco de álcool na veia. Entramos em um Carrefour lotado de gente fedida, e para a nossa decepção os vinhos baratos já tinham acabado. Barato = menos de 3 euros. Compramos nossos respectivos vinhos e fomos dar uma volta pelo centro, já que não poderíamos entrar no espaço de shows com garrafas de vidro.
Eu bem alegrinha com meu vinho rosé que custou menos de 4 euros + um moço me julgando com os olhos + logo atrás, a barreira de controle de garrafas de vidro. Curiosidade: no Brasil, até mesmo em eventos LGBT+ os machos enchem nosso saco, né? Aqui não me senti assediada em nenhum momento, foi tranquilo demais!
É claro que eu vim para a Bélgica passar vergonha. Em meio a uma conversa profunda de bêbadas, sentadas na calçada em meio à Grand Place, principal praça da cidade, resolvi torar a playlist de funk. Os turistas asiáticos estavam olhando bastante, mas eu estava muito bêbada pra entender se era curiosidade ou julgamento.
Depois disso, o que me lembro:
Procuramos um banheiro dentro de uma galeria de lojas, ali perto, não encontramos. Parecia um labirinto.
Fiz chamada de vídeo com o @ e não sei em que momento acabou
Enquanto corríamos pela cidade, a Paola torceu o pé, nesse momento encontrei algumas meninas do grupo, mas logo perdi de novo
Entramos no espaço de shows novamente, começou a tocar funk e a gente se acabou
Resolvemos beber mais uma garrafa de vinho, mas antes paramos pra pegar mais sorvete
Compramos a garrafa, mas tinha rolha! Conhecemos um brasileiro e uma portuguesa, escondemos a garrafa dentro da capa de chuva da Paola e entramos no espaço de shows – aqui os seguranças olham, mas não tocam em você ou nos pertences
A portuguesa abriu a garrafa que acabou bem rápido
Fomos parar em um bar/balada com música latina e muitos brasileiros, e eu jurava que a noite toda estava congelada às 21h
A Paola queria ir embora, mas eu não entendia o porquê, e fomos ficando mais, afinal eram 21h (na verdade já tinha passado da meia noite)
Quando finalmente aceitei ir pra casa, entramos no metrô, que era bem próximo. Sentamos para esperar o trem até que o microfone anunciou: essa estação será fechada, por favor saiam, não existem mais trens hoje.
Eu estava mandando um áudio nesse momento, e não sabia se ria ou ficava apavorada. Como é que a gente ia embora?! Nesse momento eu já estava trilíngue, falava inglês, português e francês nível etílico. Encontramos um menino que estava tão bem quanto nós, e perguntamos como chegar até a estação central (minha amiga disse que de lá poderíamos pegar uma espécie de Uber que eles tem aqui). O diálogo foi o seguinte:
“Como chego até a Estação Central?” – Então, segue essa rua reto por uns 100m, quando chegar no final você vira e vira a esquerda por mais 300m “Que? Sério? Você tem certeza? Meu, você tá bêbado… quão bêbado você está?” – Eu posso estar bêbado e mesmo assim dizer coisas boas para as pessoas, como estou fazendo agora “Ah, então tá bom. Vou seguir por aquele caminho”
Óbvio que não segui. Mesmo com pouquíssima bateria, frio, e bêbada, eu ainda sabia que a Estação era para a direção oposta. Fomos pedindo informações, chegamos, liguei para o tal de Uber. Acontece que esse meio de transporte, que na verdade chama Collecto, *explico mais sobre em outro post tá meninassss*, funciona no tempo do motorista, ou seja, depois que desliguei, precisaríamos esperar 40 min até o carro chegar. A Paola já estava caindo de sono, eu morrendo de frio (ela não, porque ela encontrou um casaco no McDonald’s e vestiu ele KKKKK trombadinha) e a bateria do celular em 3%…
Por que vocês não pediram um Uber? Porque na Bélgica o Uber não é regulamentado, então os valores são absurdos. Quando chequei, até o nosso destino a corrida sairia mais de 20 euros… vocês sabem o que são 20 euros? Muito vinho e/ou muita brusinha! Mas no meio da espera, olhei de novo e estava mais barato. Não pensamos muito e pedimos, rapidinho estávamos dentro de um carro pica das galaxias, com carregador pra celular, indo pra casa.
Chegando em casa eu tive que gravar stories contando essa linda aventura, é o vício. E sobre o Collecto… nunca nem vi.
Para estrear o quadro de perrengues, vou contar o que me aconteceu na última segunda-feira (27), quando tentei voltar às minhas rotinas jiujiteras.
Minha família é uma família jiujitera. Meus primos, meu irmãozinho de 6 anos, minha mãe (no passado) e meu padrasto treinam BJJ. Desde os 15 anos vejo geral indo pra academia animadão, se reunindo para assistir às lutas do UFC e, como pessoa que gosta de porradaria que sou, sempre achei muito interessante… mas eu dançava ballet, então afirmava que BJJ, pra mim, só pra assistir e achar bonito.
Até que eu estava prestes a me formar na Universidade e resolvi que teria que iniciar um novo esporte. Tive que deixar o ballet assim que entrei pro curso, por conta dos valores altíssimos da mensalidade e pelos horários não baterem com os do meu querido curso integral da UEPG. Comecei a treinar handebol no terceiro ano e me apeguei a isso como esporte/hobbie. Só que eu estava prestes a parar de fazer qualquer atividade, então resolvi fazer jiu crossfit! Claro que eu nem fiz aula experimental alguma, na verdade eu nem pisei em um box, só fiquei falando que faria mesmo…
Voltando a morar com a minha mãe, resolvi treinar jiu jitsu na academia do meu padrasto. Ele é o mestre da Alliance Mogi das Cruzes, então lá fui eu. Por pouco mais de um mês eu treinava praticamente todos os dias da semana, e alguns finais de semana. Esse negócio que jiu jitsu vicia é verdade. Além de manter a minha mente ocupada (eu estava precisando bastante naquele momento), eu estava mexendo o corpo todo, fazendo amizades e descobrindo que talvez o meu destino não era ser bailarina mesmo, era finalizar com estrangulamento hahaha.
Brincadeirinhas a parte, eu já sabia que estava prestes a me mudar do Brasil, então enquanto eu estava agilizando meus documentos para a Bélgica, eu procurava desesperadamente uma academia de BJJ pela região que eu iria morar. Achei que seria fácil, mas… Morando na Antuérpia e região, nada é muito fácil. Lá pelas bandas de Bruxelas existem várias academias de equipes diferentes, mas pros meus cantos, ficou difícil!
Enfim encontrei uma academia relativamente perto da minha casa. Enviei um email pedindo informações sobre horários e valores, parecia tudo ok, finalmente encontrei uma academia que batia com meu horário livre e que cabia no meu orçamento de aupoor. De ônibus eram cerca de 32 minutos, e de bike também. Como boa pessoa fitness que sou, resolvi ir de bike, até pra já iniciar o aquecimento e voltar a ser #GeraçãoSaúde, mais marombeira que eu? No Google Maps, era um zigue-zague sem fim, fiquei com um pouco de medo, afinal a aula começaria às 20:15 e acabaria 21:30… voltar à noite, sozinha, no escuro e em um caminho desconhecido não parecia a melhor das ideias.
Resolvi mostrar o caminho para a minha hosta. Ela disse que seria tranquilo e seguro, não via problemas. Então fiquei animadona, preparei minha mochilinha e esperei pelo dia da primeira aula. Antes de partir pra academia, estava jantando com a família, falei com os hosts que dali a pouco sairia para o meu primeiro treino e mostrei o caminho para o hosto, que me indicou ir pela rua principal – que liga a minha cidade até a cidade da academia. Sim, eu atravessaria algumas cidades até chegar lá. Fiquei tranquila, afinal aqui tem mais ciclovia do que calçada, é ótimo se locomover de bike.
E lá fui eu: mochila, bike, roupa fitness, um colete daqueles que brilham no escuro para voltar à noite e uma capa de chuva – em todas as últimas noites caiu uma chuvinha, então preferi ir prevenida. Na saída minha hosta solta: você não precisa de capa, nem vai chover. Fingi demência e disse: é pra me manter aquecida.
Muito plena pedalando por entre as arvorezinhas inofensivas na ida. Ciclovia é tudo, mores.
Fui lynda, pedalando e me sentindo em um filme camponês. Deu tudo certo pela rua principal. Nas primeiras curvas, faltando 10 min para chegar ao destino, me deparei com um rio e já fiquei: eita, como que vou atravessar esse negócio? Deve ter ponte. Tinha mesmo, uma ponte e um túnel. Só que o túnel veio direto desses filmes underground: segundo uma amiga minha, parecia um túnel de uma cena de Skins e, segundo minhas memórias, parecia um túnel de um filme de terror – em que uns caras estranhos iriam me encurralar e eu ia morrer ou perder todos os meus pertences (vulgo meu celular, meu kimono e minha bike).
A qualidade não está das melhores. É um print do story que postei no meu Instagram enquanto cantava pedindo por proteção divina. Essa imagem é da volta, na ida estava mais claro e eu mais confiante.
Estava claro ainda, então fui tranquila #VemTranquilo. Atravessei o túnel e cheguei até a academia (em cima da hora, como boa brasileira).
A aula
A academia era um centro esportivo, subi até a sala de karatê/jiu jitsu, fui recebida com muita educação e profissionalismo – ao contrário do que aconteceu em outra academia, que contarei a seguir – mas, mesmo assim, estranhei o treino ali mesmo: todos estavam de kimono branco, parecia karatê mesmo. As faixas não eram iguais as do BJJ – branca, azul, roxa, marrom e preta – e não tinham os graus iguais as nossas. Fui avisada que o treino era de um jiu jitsu japonês, mas não imaginei que era tão diferente.
O aquecimento parecia uma aula de Educação Física. Estavam correndo em volta do tatame desgovernados e o exercício era… TENTAR BATER NO AMIGUINHO, tipo, dar um tapa, e você tinha que fugir disso enquanto tentava atingir o outro. Então tá. Eu estava rindo de nervoso. Depois disso, o exercício era chutar o amiguinho, sempre de frente e nunca pelas costas. O último exercício, antes de sermos separados em duplas, era pegar uma faca de madeira, isso mesmo, e tentar esfaquear o amiguinho.
Novamente, já tinham me avisado que esse treino seria focado em defesa pessoal, ao contrário do BJJ, que a porradaria acontece ali no chão, durante os rolas. Mas como eu sou teimosa, jurava que era exagero e que não seria tão diferente assim. Foi diferente. Em duplas, o único exercício de chão que tivemos foi quando o professor nos pediu para laçar (com a faixa) os pés do amiguinho, e depois um pé e uma mão juntos, se é que isso é possível. Gente, que negócio esquisito. O faixa preta que estava “treinando” comigo disse que era assim mesmo, tipo cowboy. Eu já comecei a ficar sem paciência na primeira meia hora de aula, mas pelo menos recebi o elogio de ser muito rápida. Claro né, meu anjo, eu só queria acabar com essa brincadeira e dar uns estrangulamentos.
Dali pra frente, todos os exercícios foram de pé, e focados em defesa pessoal real oficial. Fugir quando tentam te enforcar, quando pegam no pulso ou no braço muito útil para as baladas brasileiras e quando prendem seus braços em um “abraço” por trás. Além disso, fizemos exercícios usando luvas de boxe e demos altos chutes naqueles sacos. Nada a ver com o jiu jitsu que eu conheço. A minha dupla bem disse: no nosso JJ, temos misturas de karatê e outras artes marciais.
O que achei bem diferente, em relação ao método da Alliance, é a didática. Não tem didática. Eu treinei com um faixa preta que não media a força. O cara era um senhor de mais de 50 anos, forte, e eu sou uma pequena pessoa de 1.57, 56kg e sem experiência com lutas. Se ele estava medindo a força, não pareceu. Não posso dizer que ele estava pouco se importando se me machucava com os chutes e socos, mas poderia ter pegado mais leve ali, irmão.
Por fim. Perguntei sobre competições. Em uma turma com 3 faixas preta e outras cores que não entendi nada, ninguém compete e nem nunca competiu. O professor, no fim, disse que ali eles não tem o objetivo de serem lutadores, mas de curtir a prática, e só. Thank u, next.
Peguei meu kimono e vim embora, e aí que a aventura começa.
O Maps não me mandou pelo mesmo caminho que fui, e eu estava tão doida pra voltar pra casa que nem me dei conta que não voltaria pela rua principal. Estava escurecendo e eu só queria chegar logo. Sim, eram quase 22h e ainda estava claro!
Tá vendo o zigue-zague que eu estava? Não era pra eu estar ali, e sim na linha reta em paralelo, à esquerda. É claro que, enquanto achei que estava tudo normal, liguei a internet e usei a bateria pra caramba. Quando chegou em uns 7% é que pensei: epa!
Enfim, só percebi que o caminho estava esquisito quando eu entrei numa rua super arborizada, escura, e cheia de mansões. Enquanto eu estava curtindo a fachada das mansões, estava tudo bem. Ficou esquisito quando as mansões foram acabando e eu estava numa estradinha. Até que a estradinha acabou, eu tinha que fazer algumas curvas e meu celular estava com 5% de bateria.
Foi nessa hora que lembrei dos hinos da igreja e comecei a cantar.
Sério, não tô brincando. Quando eu percebi, estava numa estrada de areia, terra, sei lá o que era aquilo. Não tinham casas, carros, nem árvores, era uma clareira, uma obra em meio a uma floresta com várias máquinas, tratores, casinhas de madeira que deveriam ser os lugares pros peões usarem durante o dia. Estava cantando, cagando de medo e pedalando a espera do Jason sair de uma das cabanas de madeira com uma serra elétrica.
A essa altura já eram 3% de bateria, meu celular já estava em modo de economia de bateria e avião. Lembrando: eu não falo holandês e poucas pessoas falam inglês por aqui. Lembrando [2]: não tinham pessoas.
Tentando virar a bike e encontrar um caminho, comecei a atolar o pé e a roda na lama. Dei uma leve caidinha mas tudo bem. Era só o que me faltava, ficar atolada, sem bateria, sem internet, no escuro, no meio de uma floresta, sem humanos por perto.
Procurei uma forma de sair daquela obra e ir para a rua principal. A forma mais fácil, segundo o mapa, era virar a primeira esquerda: ou seja, entrar ainda mais fundo na floresta. O que eu fiz? Dessa vez eu não fui burra, peguei minha bike e fui embora. Literalmente. Voltei pelo caminho no olhômetro, não dava pra mexer mais no celular até eu chegar em um lugar mais habitado. Consegui voltar e achar a rua principal, mas demorei uns 10 minutos. Dentro desses 10 minutos as frases mais ditas, em voz alta, foram: ai meu deus, eu vou morrer. Eu vou morrer, eu vou morrer. Gente, onde eu tô? Por que eu vim fazer isso? Eu quero minha casa. Meu deus, está escurecendo. Será que alguém me atende se eu bater na porta ou vão achar que sou uma assassina/assaltante? Será que essa roupa parece de assaltante? Onde eu tô, meu Deus? Eu odeio o Google Maps.
Olhando assim parece que tudo estava bem. Mas na verdade só tive coragem de parar e tirar essa foto, mesmo com pouca bateria, porque eu estava relativamente próxima da rua principal e tinham casas e ser humanos perto de mim.
Finalmente, estava na rua principal! E o que aconteceu? Isso mesmo, começou a chover. Mas tudo bem, pois eu estava na rua principal e a caminho de casa. O que é uma chuva pra quem quase morreu em uma cabana no meio de uma floresta?
Se você jogar no Google, encontrará centenas de blogs de aupairs espalhadas pelo mundo – principalmente pelos EUA e nos principais países da Europa – mas como eu não poderia deixar de falar sobre o que é Au Pair (no meu vocabulário, AuPoor), explico sobre o programa baseado na minha visão.
Au Pair é basicamente um intercâmbio no qual a pessoa vai para um país estudar a língua local (ou em alguns casos, fazer um curso aleatório, tipo artes ou sei lá), morar com uma família e receber uma mesada. Em troca disso, cuida-se dos filhos da família. Aí que está a grandiosa felicidade rs rs rs… algumas pessoas vêem um programa como uma forma de realizar o sonho de ser intercambista mas, na minha opinião, não é bem assim, meus anjos.
Antes de você concluir que esse intercâmbio é pra você, pare e pense em alguns pontos muito importantes. Ah! Sim, eu sou do tipo de pessoa que fala os pontos negativos primeiro, se você tiver estômago, aí sim eu libero a parte top/top:
Você fala algum idioma, além do português? Não vale verb to be!
Você é resiliente? Não adianta dizer que sempre viaja pra Disney com toda a família e que aguenta tranquilamente passar 1 semana sem arroz e feijão
Você já teve contato com outras culturas extremamente diferentes da sua e, mesmo assim, soube respeitar e entender?
Quando o assunto é Au Pair na Europa: você sabe que a “mesada” é, literalmente, mesada, e não um salário? (Desista da ideia de juntar dinheiro e voltar rycka pro Brasil)
Será que você tem saco pra cuidar de uma criança com a criação completamente diferente da brasileira?
Se você não desistiu de ler meu post enquanto pensava “o que essa menina tá fazendo lá, se só tem pedrada nesse intercâmbio?”, continue até o final.
Eu aprendi a falar inglês enquanto morava em Londres, dos 12 aos 14 anos, e quando voltei para o Brasil continuei estudando em escolas de línguas. Tentei aprender alemão, desisti. Tentei aprender francês, até estava indo bem, mas tive que pausar por causa do TCC. E disso tudo percebi que, pra mim, um idioma só se aprende de verdade quando você está imerso no país, na cultura e, principalmente, aberto para ser ensinado na prática. Sem o inglês, eu dificilmente conseguiria e teria coragem de tentar me jogar em um país que a língua oficial não é o próprio. Na Bélgica, são três os idiomas oficiais: holandês (na região que eu moro), francês e alemão. Então se você pretende ir para algum país nesse estilo, sugiro que se jogue na língua local antes de começar a procurar famílias, ou que tenha o inglês intermediário, no mínimo.
Não desiste de mim, estou dizendo isso porque em um mês de Bélgica eu já me lasquei, e olha que meu inglês é fluente! “Nossa, as pessoas fora do Brasil falam inglês, em qualquer país”. Errou. Eu pensava isso também, afinal eu só viajava para lugares extremamente turísticos e por um curto período de tempo. Até chegar aqui e perceber que no mercado, na escola das crianças, na farmácia, na fila da loja etc quase ninguém me entende. É desesperador. NEM AS MINHAS CRIANÇAS ME ENTENDEM DIREITO, e eu sou a 5ª Au Pair da família – todas falavam inglês, assim como eu.
Enquanto pesquisava sobre as famílias, sempre deixei claro que sou vegetariana há 10 anos, e sempre me tranquilizavam, já que o que mais comem por aqui são carboidratos (macarrão, pão…) e queijo. Nossa, eu tava feita! Errou. Eu amo macarrão, durante a faculdade foi isso que me sustentou. Mas imagina você comer macarrão 5 vezes por semana. Toda. Semana. E o almoço é sanduba, bebê. Desiste do arroz e feijão. Desiste do prato com ovo frito com bife acebolado.
Mas ok, vou soltar umas coisas boas antes que eu assuste todo mundo. Ser vegetariana fora do Brasil é TOP! Eu já estava feliz que durante os últimos anos os cardápios melhoraram pro nosso lado. Existem mais opções nos mercados e restaurantes e tudo mais, mas nada se compara às proteínas vegetais que ando comendo por aqui… uma coisa mais diferente e gostosa do que a outra, parece comida de verdade, e não aquele papelão hidratado que eu estava acostumada.
Mesmo assim, tá meio complicado comer tanto macarrão, purê de batata (batata e cenoura amassada, sem sal, sem leite, sem manteiga) e pão. Então é aquilo, a abertura pra uma nova cultura já começa da mesa.
Na família que eu moro, tenho meu quarto no segundo andar, ao lado do quarto das crianças. Tenho um banheiro (maior que meu quarto, é muito chique) só pra mim, muito Pinterest ele, por sinal. Não posso reclamar da minha acomodação mas, claro, se fosse um studio (na França o costume das Au Pairs morarem separadas da casa dos hosts é mais comum) ou um quarto bem mais privativo eu acharia melhor. Tenho minha privacidade muito bem garantida – isso inclui sair e voltar a hora que eu quiser, mas você precisa conversar isso com a família antes, pois nem todos têm essa sorte – e também, um ponto importante: posso tomar banho sem ninguém me controlar.
Isso foi uma brecha pra eu falar sobre banho. EUROPEUS, TOMEM BANHO! Brasileiros, acostumem-se, só a gente toma banho todo dia. Nem europeus, nem estadunidenses, nem asiáticos… ninguém toma tanto banho assim. É bem comum tomarem banho a cada dois dias, ou alguns por semana… por mês, quem sabe. São casos e casos. O mal cheiro no transporte público é fróid. NOSSA, MAS VOCÊ NÃO FALA PRA TOMAREM BANHO AÍ NÃO? Eu estou no país deles, na rotina deles, eles não viram pra mim e falam: “Ellen, para de tomar banho todos os dias, ok? Não é legal nem normal”. Então eu não interfiro.
No site http://www.aupairworld.com você encontra os países em que o Au Pair é regulamentado, bem como as horas trabalhadas e o famoso pocket money. Na França, a mesada é de 320 euros por mês, na Bélgica são 450 euros – esses valores são o salário mínimo. Cada família pode escolher pagar isso ou mais, vai da sua sorte. Além disso, eles são obrigados a te dar moradia, quarto e banheiro (no máximo dividido com as crianças) individuais e a alimentação. Alguns são mais generosos e pagam transporte para o curso de línguas, o próprio curso, a linha de celular e os adorados extras (quando você cuida das crianças por mais horas). Com esse valor, é possível se virar muito tranquilamente, ainda mais se você for uma capricorniana como eu.
Com 450 euros eu faço 4 viagens tranquilamente, mas se você quiser torrar tudo em brusinha na Primark, não garanto que vai colecionar muitos carimbos no passaporte.
Agora sobre cuidar de criança… paciência, irmãos! Aqui as crianças e os bebês são MUITO mais independentes do que no Brasil. Meu bebê de 6 meses dorme sozinho, a gente coloca no berço e ele fica lá. As meninas também. As crianças vão pedalando pra escola, eu só acompanho, já que uma delas tem apenas 3 anos, e depois deixo o bebê na creche. Isso não é comum no Brasil, mas poderia ser. Por outro lado, por ter uma pessoa “servindo” elas, prepare-se para buscar água quando falarem baixinho: tô com sede (em holandês), tentar convencer a juntar os brinquedos e a não surtar quando se cobrirem com a mesma manta que o cachorro dorme.
Agora os pontos positivos?
Você vai sair da sua zona de conforto. Vai conhecer não apenas a língua local, mas quando estiver no ponto de ônibus vai passar o mapa mundi diante de você. Vai conhecer gente de todos os cantos, algumas abertas a conversar e trocar experiências, outras que vão esbarrar em você e nem te pedir desculpas… logo, você vai saber: aquela dali era francesa. Você vai comer comidas sem tempero um dia, mas em outro vai experimentar um tempero de um país que nem sabia que existia. Vai ouvir experiências dos seus hosts nos trabalhos deles – a minha hosta está fazendo um curso pra aprender a cortar carne, o meu hosto é da área de finanças, mas sabe trocar o encanamento do esgoto da casa, ele também está construindo uma piscina gigante – sozinho.
Você vai ver que o mundo é muito mais do que comer arroz e feijão todos os dias. E que corote é bom, mas beber vinho francês por 2 euros é melhor ainda – não da ressaca! Vai aprender que com 70 euros você passa um final de semana em Paris, ou em Bruxelas, vai conhecer brasileiros de todas as partes, que moraram em vários outros países e que durante a sua tour por Paris, vai tirar fotos maravilhosas suas, porque ela é fotógrafa. Vai aprender a se comunicar com um bebê de 6 meses que não fala, e também a traduzir uma fofoca entre sua hosta e a melhor amiga dela (em holandês) e pensar: he he he eu sei que estão falando de mim, mas vou fingir demência.
Ao mesmo tempo, você vai perceber que o Brasil não é tão flop assim. As calcinhas são mais bonitas, os sutiãs e biquínis também. Havaianas todo mundo usa, mas aqui tem muita imitação – saudades Havaianas! Comer macarrão é bom, mas que saudade de tapioca! Sorvete italiano, realmente italiano, é chique demais, mas açaí com granola… os nossos doces são doces de verdade, aqui eles perguntaram qual o índice de diabetes no Brasil, depois que fiz um bolo de cenoura com, literalmente, todo o açúcar da casa (e faltou 1 xícara).
Você está sozinha. Mas tem o mundo ali na esquina pronto pra te fazer companhia, ou pelo menos te ensinar que você pode se tornar a sua melhor companhia – ainda mais quando nem todas as suas últimas companhias de viagem foram das mais agradáveis (isso fica para um post-perrengue).
Quem diria que a essa altura do campeonato e da modernidade da era da Instagrammers e Youtubers eu voltaria para as origens das influências digitais… aqui estou eu, escrevendo um “bom e velho” blog!
Em dezembro me formei em Jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e, enquanto estava me despedindo da vida universitária, dos rolês no Tradi e dos jogos mais insanos da minha vida, eu também estava 100% apavorada pelo que a vida iria me trazer dali pra frente. Sem aulas, sem as responsabilidades acadêmicas e, em troca, com responsabilidades da vida adulta.
Onde eu iria morar? Será que eu seria efetivada no meu estágio em Ponta Grossa ou teria que voltar a morar com a minha mãe? Será que se eu voltasse a morar com a minha mãe eu demoraria a encontrar um trabalho na minha área ou encontraria meu dream job rapidão KKKK ILUDIDA? A real é eu estava realmente surtando com tantas incertezas. Surtando tanto que acabei deixando em stand by um desejo que eu tinha desde que voltei a morar no Brasil, em 2010: eu tinha que voltar pra Europa!
… se alguém que está lendo isso não conhece minha história, eu explico:
Eu nasci em Mogi das Cruzes-SP, cresci até os 10 anos em Guarulhos-SP, voltei pra Mogi por meio ano, enquanto minha mãe estava trabalhando em Londres, fui morar por um ano em Santos Dumont-MG e depois fui morar dois anos em Londres, com a minha mãe e minha tia-irmã. Até que em um belo dia, a senhora minha mãe resolveu voltar para o Brasil… Mogi? Não! RIO DE JANEIRO. Tipo? Ok, fomos. Odiei. Do inverno de Londres para o verão do Rio de Janeiro em JANEIRO! Calor infernal, sotaque esquisito e pessoas me zoando por falar “poirta” na escola. Fiquei meio ano no Hell de Janeiro e voltei a morar em MG. Depois disso foi maior confusão, fiquei entre Mogi das Cruzes (nem a minha mãe aguentou o Rio) e Santos Dumont, até parar em Ponta Grossa para cursar Jornalismo.
… de volta ao foco desse post:
Eu me encontrei em Londres, apesar do pouco tempo, e sempre pensei que cidade alguma do Brasil era pra mim white girl problems . O plano era ter feito a faculdade de Jornalismo de Moda na UAL – University of Arts London, mas não foi po$$ível. Então o plano virou fazer a pós-graduação lá, mas também ficou inviável. Como é que eu ia vir pra essa joça de Europa a) sem ter cidadania de algum país da União Europeia b) sem ter grana pra ser estudante c) sem estar ilegal (sou cagona)
Pensei várias vezes em fazer o tal de aupair, mas ao mesmo tempo eu (e várias pessoas com quem eu falava disso) me diziam que eu não deveria largar meu diploma quentinho de Jornalista graduada por uma das melhores universidades públicas do país pra limpar bunda de neném gringo. Sinceramente, complicado né beninas… mas to aqui!
Essa sou euzinha em frente à escultura de Brabo jogando a mão do gigante Druon Antigoon em direção ao Rio Escalda. O gigante cobrava pedágio para que as pessoas entrassem na cidade, até que o Brabo desafiou ele e PEY cortou fora a mão – que deu o nome de origem á cidade: Antuérpia (mãos arremessadas). Em outro post eu conto+
A situação no Brasil não tá fácil nem pra engenheiro da USP, imagina pra Jornalista alô Bololoro… já estava desanimada com o cenário antes mesmo de terminar o curso mas, enquanto esperava pela colação de grau (que seria no fim de Fevereiro), já percebi que seria complicado encontrar algo na minha área, mesmo morando próximo a São Paulo – foram mais de 50 currículos enviados, 2 respostas: em uma, a mulher falava nada com nada, atrasou a entrevista que seria por Skype em mais de 2 horas e no final ficou de retornar a ligação que estava falhando. Na segunda, fui indicada a uma vaga sensacional, fiz a entrevista pessoalmente, soube que gostaram do meu perfil (e principalmente da minha primeira Iniciação Científica da graduação) e estava super animada.
Em paralelo, estava conversando com famílias na França – meu sonho é aprender a falar francês – e na Bélgica, só porque na Bélgica tem uma região que fala francês. A família da França estava me enchendo a paciência desde o início, mandei pastar. A da Bélgica ficava em uma região que falam holandês. Pensei: se for pra se lascar, melhor se lascar em Euro – sem aprender o meu tão sonhado idioma – do que aqui no Brasil esperando mais tempo enquanto minha pequena poupança feita durante os anos de UEPG se esgotam. E lá fui eu.
Nesse um ano de Bélgica (Zoersel, próximo da Antuérpia, segunda maior cidade do país) o plano é um só: não guardar dinheiro e torrar cada centavo em viagens!
NOSSA MAS COMO ASSIM VOCÊ NÃO VAI GUARDAR DINHEIRO PRA SUA PÓS?!
Meus anjos, eu guardo dinheiro desde que eu nasci, eu acho. Eu sou capricorniana! Quando eu era criança eu guardava minhas moedas pra comprar a mochila que eu queria pro ano escolar seguinte (lembro-me como se fosse ontem daquela mala de rodinhas jeans da Sandy & Junior), durante a graduação eu vendia canecas durante os jogos, dentre outros itens que faziam a alegria da comunidade acadêmica. Sempre me programei pra tudo, então acho que chegou a hora de me programar, no máximo, pras viagens que farei nos próximos três meses, e olhe lá!
Quem me conhece sabe que eu só falo abobrinha. Nesse blog eu vou tentar não fazer o uso de palavrões, mas não garanto.