Quem tem planos de mudar de país, desengavetar planos de estudar ou trabalhar fora e visitar o mundo tem pressa de realizar. Mas, e quando, no meio do caminho, surge um vírus que fez o planeta todo parar e se trancar em casa por tempo indeterminado?
Falo por mim: ano passado, quando finalmente colei grau e estava livre das obrigações relacionadas à minha graduação, só pensava em uma coisa: encontrar logo uma família na França ou na Bélgica e entrar no primeiro vôo. Eu queria viajar, queria me mudar, aprender uma nova língua, aumentar minha lista de lugares visitados. Recebia vários conselhos de quem estava lá: vai com calma, seja cautelosa na escola de famílias, não vai na louca. E se eu ouvi? Um pouco. Tão pouco que acabei indo mais pelo que pesou no momento (no caso, uma família que dividiu despesas comigo) e não pelo que eu realmente procurava (uma família que me desse liberdade pra aproveitar meu ano e ter qualidade de vida dentro e fora de casa, com respeito pelo meu trabalho e vida pessoal), e eu paguei por isso: só consegui viver, aos trancos e barrancos, metade do meu ano.
Desde que o corona-vírus começou a se espalhar, saindo dos limites da China e chegando a Europa através da Itália, as fronteiras de 31 países europeus fecharam para a entrada de estrangeiros, incluindo os do território Schengen, por 30 dias a partir de 18 de março. A zona Schengen é formada por 26 países europeus, e inclui os países em que o Au Pair é legalizado para brasileiros, como a Bélgica, França, Alemanha e Holanda, países mais buscados por brasileiras para o programa de Au Pair.
Levando em conta o fechamento das entradas, os órgãos administrativos que emitem vistos consequentemente suspenderam as atividades. Aqui no Brasil, quem já tinha agendamento para emissão de vistos nos consulados, ainda não obteve respostas e, para quem está na tentativa de marcar um horário, a resposta dos consulados é: estamos sem atividades, entre em contato no fim do mês (ou seja, fim de maio).
E-mail recebido dia 4 de maio de 2020, referente aos agendamentos para vistos no consulado da França em Brasília
Enquanto isso, a Itália está estudando formas de reabrir as fronteiras para receber imigrantes ainda este ano. Mas, se o seu objetivo é ser Au Pair e você não tem o direito à cidadania europeia/italiana, não adianta muito essa informação, porque lá esse tipo de intercâmbio não contempla não-europeus e você pode, no máximo, ficar 3 meses no país usando o visto de turista. Será que a Itália está surtando? Pode ser que sim. O segundo epicentro da pandemia foi lá e até hoje foram 29315 mortes confirmadas por covid-19, sendo que mais casos continuam sendo confirmados diariamente.
O Reino Unido bateu o recorde da Itália e registrou mais mortes, 28427 hoje – o que é bizarro, visto que o RU é bem menor do que a terra do macarrão. Então, se você planeja ir pra terra da rainha como estudante… é melhor dar uma segurada na emoção, já que os números estão aumentando e é ali o novo epicentro europeu. Além da covid, o Brexit quebrou as pernas de quem planeja(va) migrar, restando apenas alguns meses (até o final de 2020) pra entrar com o pedido de Settlement Status para aqueles que tem nacionalidade EU.
Na França, em algumas regiões as escolas vão abrir, assim como o comércio e outras atividades (aos poucos, é claro), enquanto outras permanecerão em quarentena – e naquele esquema: saída apenas por 1h/dia, levando o documento que justifica o motivo de estar fora de casa.
Mapa de 30 de abril. Em verde: regiões que podem seguir os protocolos para o “desconfinamento”. Em laranja: regiões incertas. Em vermelho: regiões que permanecem em quarentena.
A “boa notícia” é que, pra quem está com vistos de residência e de longa duração (titre de séjour & visa de long séjour) para vencer entre 16 de março e 15 de maio na França, estão automaticamente renovados por 6 meses. Informações oficiais do Campus France, tá meninas? Isso significa que as au pairs, que estavam no fim do segundo ano (ou do primeiro, ou de qualquer período do visto) ganharam meio ano pra conta… e isso influencia diretamente em você, candidato ou candidata a au pair, já que a família vai querer continuar com quem já está lá, acostumado com a rotina e sem necessidade de passar por uma longa burocracia, pelo menos por mais meio ano.
A emissão de vistos para viagens não-essenciais para a Bélgica também está suspensa até segunda ordem, de acordo com o site oficial, assim como os vistos e qualquer outro tipo de viagem de não-cidadãos ou profissionais não-essenciais na Alemanha, como explicou o site.
A página do VFS Global mostra notícias que todas as emissões de visto estão suspensas para a Holanda
E se eu quiser procurar famílias mesmo assim, o que eu digo?
Mesmo com a informação da suspensão de vistos, quem quer ser Au Pair continua em busca de famílias nos grupos de Facebook e no AuPairWorld.com, mas as host families vivem perguntando: mas você vai conseguir emitir o visto?
Diante dessa pergunta, você não precisa ficar com medo de responder a verdade. Ou você diz que, por enquanto a emissão está suspensa mas você fica disponível pra eles e, assim que reabrir, você vai começar o processo; ou você descobre a cura do corona vírus.
Minha dica nesse período é usar o tempo a seu favor.
MAS EU TENHO 26 ANOS, NÃO VAI DAR TEMPO! Então comece a selecionar os países que aceitam 26+, como Alemanha e França
EU QUERO IR PRA ALEMANHA DE TODO JEITO, E ESTÁ TUDO FECHADO! Você já tem o nível mínimo para o teste de alemão que o visto exige? Não? Então comece a estudar com calma, existem vários canais, materiais grátis e grupos de estudos pra isso
NÃO CONSIGO ARRUMAR FAMÍLIA DE JEITO NENHUM! Aproveite pra arrumar seu perfil no AuPairWorld: compare ele a de outras meninas que são Au Pairs (não tenha vergonha de pedir pra olhar o delas), adicione fotos, analise bem as informações que você coloca, reescreva sua apresentação e a mensagem padrão que você envia para as famílias que gosta. Aproveite para ser mais criteriosa: o que você busca com seu ano? Viajar? Aprender uma língua? Ter um studio separado da família? Poucas crianças pra cuidar? Comece a traçar o que você procura e encontre famílias que tenham a ver com você, com calma, e faça as entrevistas
AI QUE DESESPERO, EU QUERO IR ESSE ANO E NEM TERMINEI A FACULDADE! Então por que você não aproveita e termina seus estudos aqui? Ainda mais quem está tendo aulas online mesmo durante a quarentena. Termina essa etapa e depois começa outra 100% livre. Quem sabe você não vai começar uma pós ou mestrado depois do ano de Au Pair?
Se você já está na Europa e quer mudar de país para um novo ano de Au Pair
Melhor ainda, né mana? Você pode aplicar, enquanto seu visto e residência ainda estão válidos, para ser Au Pair em um país vizinho. O que mais tenho visto são famílias procurando “Au Pairs que já estejam na Europa”, porque a burocracia é menor e ainda é possível transitar dentro do território. Nesse caso, é preciso consultar o consulado do país em que você está para garantir a emissão de vistos aí dentro.
Em tempos como esses, aprendemos que não temos total controle sobre o tempo, os planos e as decisões. Dessa vez fomos obrigados a esperar (tarefa difícil), exercitar a paciência e respeitar as nossas limitações: não importa quanto a gente quer, não podemos mudar o agora, mas podemos, com muita calma, pensar no que é melhor pro futuro – mesmo sem saber quando exatamente será esse futuro – pra fazer dele um tempo melhor. Não cometa o meu erro de ir na louca e acabar perdendo tempo e expectativas, dessa vez você tem bastante tempo pra ser mais criterioso e não cair em uma família perigo, encontrar cidades que fogem de Bruxelas-Berlim-Paris-Amsterdam e que serão ainda mais incríveis pra sua experiência!
Não sei se vocês sabem, mas cheguei na Bélgica como turista, apliquei para a Work Permit e para o visto durante meu período como turista, percebi que minha família era perigo e por causa disso tudo… busquei outra família e mudei de casa!
Quando novas meninas entram nos grupos de Facebook e Whatsapp dizendo que encontraram uma família, mas que não querem fazer o processo do Brasil, mas entrar como turista e aplicar direto da Bélgica, conto 10 segundos e espero as mensagens chegarem: NÃO FAÇA ISSO. VOCÊ É LOUCA! VAI DAR ERRADO. PARA, FAZ COM CALMA. NOSSA, BOA SORTE. E por aí vai…
Pra falar bem a verdade, 90% dessas que falam pra não fazer, vieram dessa forma. Conheço a história de apenas 2 meninas que realmente deram mole e não conseguiram que o processo desse certo: 1- a família era apaixonada por ela, não conseguiram fazer o processo dentro do prazo de 90 dias (visto de turista ao qual qualquer brasileiro tem direito quando entra no território Schengen), e por conta disso a mandaram de volta para o Brasil para realizar todo o processo de lá (inclusive pagaram por tudo, até mesmo as passagens!). 2- a família deu a opção: volte para o Brasil, por sua conta é claro, ou fique ilegal aqui. A garota escolheu a segunda opção e está até hoje na Bélgica. É aquele ditado: choices.
De resto, o que realmente não é recomendado: ir para uma família que nunca teve Au Pairs ou ir para a Bélgica na louca, sem ter fechado um match. Os porquês: famílias que nunca tiveram Au Pair não estão acostumadas a lidar com toda a burocracia, tempo e estresse relacionado. E ir na louca é isso, além de não ter nada certo e estar perdendo dias dentro do seu período de turista, você corre o risco de encontrar uma família novata.
Não é novidade que os europeus amam uma burocracia. Na França, tudo é por CORREIO! Você pede um chip de celular (pelo telefone) e ele chegará por correio… Numa dessas, uma amiga ficou 2 semanas esperando, e o chip foi perdido (risos de desespero). Na Bélgica muitas coisas também são pelo correio, talvez a maioria, ou pessoalmente. E-mail? Aguarde deitada e ouvindo uma música bem relaxante… vai demorar um tempo para receber uma resposta, isso quando eles entenderem a solicitação e responderem tudo de primeira. Telefone? Se você dominar o idioma, pode ser que consiga sua resposta, sem isso, espere por um bocado de grosseria (quase não falam inglês em Bruxelas, que é a capital, imagine só nas cidades menores), ou que desliguem na sua cara quando você tentar explicar algo em inglês.
Caso a sua família, assim como a minha primeira, já tenha familiaridade com o processo burocrático, não tem porque não ir. É óbvio que eu gostaria de ter saído do Brasil com tudo certinho: carteirinha da Permissão de Trabalho e visto no passaporte. Mas nem eu e nem a família queríamos esperar, a opção era entrar como turista. Além disso, todas as au pairs deles tinham ido assim, e tudo deu certo. Confiei e fui.
Entrando na Bélgica como turista
Quando aceitei entrar como turista, esqueci do detalhe: o que eu iria dizer na imigração? Quando questionei meu host dad, ele respondeu: a verdade. Mostre a carta convite e diga que vai fazer o processo daqui. Não tentei a sorte, pois eu sabia que olhariam e responderiam: volte para o seu país e faça o processo de lá, não sou palhaço.
Gente, somos não-europeus, brasileiros e, no meu caso, mulher, recém-formada (desempregada) que não tem 1 motivo para estar presa ao Brasil. Eu poderia estar indo fazer o processo de au pair? SIM. Mas eu poderia estar mentindo para imigrar ilegalmente também.
Eu disse que estava entrando como turista, mostrei a carta convite que não exatamente tinha as informações que meu host dad tinha colocado sobre eu estar indo para aplicar da Bélgica e… ENTREI.
Em outros casos, vejo meninas que conseguiram a carteirinha da Work Permit, mas não teriam tempo de aplicar para o visto. Mesmo assim, já estavam no lucro. Com a carteirinha em mãos e a carta convite explicando a situação, elas entraram como turistas e dizendo que realmente estavam indo para aplicar. Nessa situação não tem que ter medo de ser barrada, você não vai.
O meu processo burocrático para o Au Pair
24/04/2019 – entrei no território Schengen 17/06 – recebi a Work Permit 01/07- prefeitura recebeu a solicitação da minha ID 17/07- reenvio da solicitação da ID* 18/07- recebemos, por e-mail, o reenvio do meu contrato de au pair, o que eles receberam para a WP estava com a data de 2018 19/07- reenvio do contrato 22/07- recebi por e-mail o aviso de ir até a prefeitura da cidade para tirar minhas digitais, dali seriam até 10 dias úteis até o recebimento da ID 30/07- recebi por carta o aviso de que eu poderia buscar a ID na prefeitura
*Como eu tinha uma viagem marcada para os EUA, teria de sair não apenas do território Schengen, mas do continente europeu. Imagina meu cagaço de não conseguir entrar? Ou de perder minha passagem que custou o total de 2 salários? Tirando esse pequeno grande detalhe, eu planejava sair no início de agosto da minha família e ir para uma nova família em Bruxelas, e só poderia fazer isso caso estivesse completamente legal no país (com todos os documentos), pois já ouvi casos de famílias que entraram em rematch antes da ID chegar e, simplesmente, cancelaram a ID da au pair em segredo, o que impossibilitou ela de ficar no país ou arrumar outra família. Levando toda essas informações em consideração eu, literalmente, peguei minha bike e fui até a prefeitura, pedi para me informarem a qual pé estava meu processo. Fui informada que a solicitação da minha ID, que poderia ter sido feita no mesmo dia em que recebi a WP, ou seja, no dia 17 de junho, foi realizada meio mês depois – meu host negou, mas os fatos são os fatos. Graças à minha insistência, a prefeitura reenviou o pedido para o escritório geral (em Bruxelas) e passou a me informar, diretamente no celular e e-mail, das novidades.
Fique bem atenta durante o processo. Além de você não ter o tempo a seu favor, você não tem a família. É claro que é do interesse deles que você esteja legal, assim eles não correm nenhum risco legal de arrumar problemas, mas caso você passe a estar ilegal/sem documentos, você será automaticamente descartada. Eles não são sua família. Você é uma funcionária e para de ser quando der algum problema. NÃO SEJA ALICE!
Meu host não gostava de ser questionado, nem de ser frequentemente lembrado dos prazos e da minha pressa. Quando pedi o “número de protocolo” para poder saber o status do processo, ele disse que não tinha. Aí eu me pergunto: amado? Como VOCÊ segue o processo se não existe um número? Algo de errado não está certo. Só descobri que o tal número está impresso na Work Permit quando fui até um advogado – assunto para outro post. E com a Work Permit+Passaporte em mãos é que consegui ir até a prefeitura dar um acelero naquela cambada. Aliás, eles quase não falavam inglês, foi complicado, mas deu certo.
Fiquem atentas ao correio! Se você desconfia que sua família é perigo, mais ainda. A garota que teve a ID cancelada chegou a receber a carta dizendo que poderia buscar na prefeitura, o problema é que ela estava viajando, e quando chegou e pediu a carta, a hosta se fez de desentendida. A carta é muito importante, porque além de ser a prova de que você é você, nela contém uma senha exclusiva da sua ID, e a ID só pode ser validada (é tudo feito no computador, através do chip) com a senha e a sua digital.
Quais documentos são necessários para todo o processo?
Eu, honestamente, não tive nenhum trabalho para o processo. Já que minha família tinha tudo pronto, graças às última 3 Au Pairs que eles tiveram (não sei como sobreviveram), eles só alteraram as informações dos documentos. Meu único trabalho foi o de traduzir meu diploma, tirar os antecedentes criminais, apostilar e o traduzir.
Mas vamos aos detalhes, todas as informações você encontra em uma pesquisa rápida do Google, pequeno gafanhoto preguiçoso: no site do Ministério do Trabalho belga, eles colocaram um passo a passo, que vou traduzir.
cópia do passaporte (as duas páginas plastificadas, que contém sua foto e informações pessoais)
cópia da tradução juramentada do seu Histórico Escolar do Ensino Médio ou Diploma da Universidade, o qual for mais conveniente pra você. Pra mim, foi o Diploma, visto que a tradução cobra por palavra traduzida, meu diploma continha menos palavras do que o Histórico, então saiu mais barato
para algumas prefeituras: antecedentes criminais, ou seja, FICHA LIMPA TÁ MENINAS? Você gera sua ficha online no site da polícia federal, sem custo algum, é só colocar seus dados. Mas para ter valor: leve até os cartórios liberados para apostilar documentos (busca no google, existem listas), apostile seus antecedentes e depois disso leve até um tradutor juramentado
atestado médico assinado por um médico credenciado pelo governo belga (listas no google, de acordo com os Estados do Brasil. Não são todos os Estados que têm médicos reconhecidos, talvez você tenha que viajar até RJ, SP, BA, DF…) ou, caso aplique para a WP da Bélgica: qualquer médico belga pode assinar. O diferencial entre BR e BE: no BR você terá que pagar a consulta (mínimo de R$200)+exames solicitados, alguns você consegue fazer pelo SUS (sangue, por exemplo), outros não (raio-x do tórax); na BE eu fui numa clínica geral da família, ela me deu uma olhada geralzona e assinou
prova de que você está matriculada em um curso de línguas – deve ser a língua da região que você mora. Eu morava na flamenca, portanto eu obrigatoriamente teria de estudar holandês (poderia estudar outras línguas também, desde que o holandês fosse a primeira)
contrato de Au Pair assinado por você e pelos host parents
certificado de que a família pagou por um seguro-saúde que cobre repatriamento, se necessário, durante todo o seu tempo de visto (1 ano)
Esses documentos acima, junto com o documento específico para a solicitação, são para o pedido da permissão de trabalho (Work Permit), e deverão ser enviados pela host family, conforme esse link explica. Caso os documentos estejam OK e sua WP for aprovada, você recebe a carteirinha azul e pode aplicar para o visto (caso esteja no Brasil) ou para a ID (caso já esteja na Bélgica).
Modelo de ID belga. Acho chique.
Last, but no least
Com todos os documentos em mãos e sua situação regularizada na Bélgica, você têm o governo e as leis do seu lado. Sendo assim, não avacalhe!
Brincadeiras a parte, fique sempre atenta: você não é da família deles, você não é belga, você está ali para trabalhar – na visão deles. Não deixe que eles montem em você esperando que te darão amor e afeto, porque não vão. Não trabalhe mais do que as 20h permitidas e, se trabalhar (todas trabalham hahaha) combine o valor ANTES ou, no mínimo, tenha certeza que terá aquela quantidade de horas extras em dias de folga.
Saiba que, diferente de outros países, a Bélgica só permite que você mude de família 1 vez. Eles só emitem 2 work permits por au pair dentro do período de 1 ano, então se você estiver na primeira família com sua work permit número 1 e, assim como eu, quiser trocar de família, escolha bem, porque será sua segunda e última chance. Além disso, trocar de família não renova ou dá mais tempo de visto. Você pode ter 11 meses com a família 1 e trocar para a família 2, você só poderá passar 1 único mês com a segunda.
A WP é o documento mais demorado, na opinião de TODO MUNDO, e pode levar 1 mas também 6 meses para ser emitida, a média é de 3. Fui para a segunda família e passei 3 meses com eles, fui demitida e não recebi a WP (rindo com respeito). E ah! Para emitir uma nova WP, especialmente se não for na mesma região (a minha segunda região foi Bruxelas), é necessário fazer o processo do 0: enviar um novo seguro-saúde, matrícula, tradução, exame médico etc.
Caso você esteja pensando em trocar de família: encontre uma nova família em silêncio, não levante suspeitas. Existem MUITOS casos, a maioria deles, de famílias que foram informadas pela au pair de que elas queriam um rematch e se revoltaram contra as meninas, expulsando-as da casa no mesmo dia ou dando o limite de 1 dia para saírem, mesmo sem terem para onde ir. Tenha certeza de que você terá um lugar para ir. No meu caso, minha família 1 surpreendentemente não me expulsou, fiquei alguns dias na casa até a minha segunda família me buscar (ok, a primeira família precisava muito de mim, eram férias de verão).
PODE SER ÚTIL:
Minhas traduções eu fiz na Easy TS de São Paulo. Eles têm escritório em Curitiba, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Campinas e na melhor cidade do Brasil, aka São Paulo. Os preços são bons (não fiz muitos orçamentos, pois estava com pressa & preguiça), são extremamente rápidos (2 dias úteis), de segurança e acessíveis (fazem o orçamento super rápido, online, e todo o processo é por e-mail). O único defeito é que na hora da retirada, eu busquei pessoalmente, mas existe a possibilidade de pagar o Sedex, fui tratada mal, e olha que eu fiz várias traduções com eles, a primeira pro Au Pair (abril) e a segunda para a pós-graduação (em novembro), um processo caro e, sempre, tratam a gente com extrema grosseira na hora da retirada, como se estivessem nos fazendo um favor de graça. Indico eles por conta da agilidade, mas se eu um dia conhecer alguém que faça os trabalhos em até 2 dias, paro de indicar eles 😀
GLOSSÁRIO
Carta Convite: sua host family deve escrever uma carta na qual se responsabilizam por você, pela viagem e explicam para os funcionários da imigração que você será uma au pair. Não deixe de especificar: nomes completos dos host parents (pai e/ou mãe e/ou responsáveis legais pelo seu processo de au pair), documento deles (passaporte ou cartão de identidade), endereço completo, telefone para contato válido – peça para eles ficarem atentos no horário que você desembarca, caso tentem ligar e não atendam, você pode acabar na salinha até que consigam contato, seu nome completo e número de passaporte. Work Permit: é uma carteirinha de papel contento suas informações e da família, especificando qual sua função de trabalho e validade (a mesma validade do visto); Visto: um adesivo com sua foto e dados pessoais que vai colado no passaporte. Você só recebe o visto quando aplica para o processo do Brasil. Caso aplique da Bélgica, como eu fiz, você não terá um visto, apenas uma PERMISSÃO DE RESIDÊNCIA (o valor, na prática, é o mesmo). Para receber o visto, você precisa primeiro ter a Work Permit; ID card/Residency card: é a permissão de residência e pode ser usado como carteira de identidade. Um cartãozinho de plástico que você retira na prefeitura do seu bairro (quando mora em cidades grandes) ou cidade. Há um chip nele e, depois de validado na prefeitura, contém seus dados e endereço. Para conseguir o cartão, você precisa primeiro ter o visto (ou, no caso de quem aplica da Bélgica, a Work Permit).
Depois de decidir o país para fazer o sonhado intercâmbio, vem a pior parte: encontrar a família perfeita. Não querendo te assustar, mas já assustando, o seu ano perfeito como Au Pair depende de uma família no mínimo decente, afinal você vai trabalhar e conviver com seus chefes, então você vai precisar tolerar essa barra que é a vida com a host family.
Eu mesma pensava “nada a ver, eu quase não vou ficar com eles. Nos finais de semana eu viajo, passeio, me mando da casa. E quando eu estiver off eu me tranco no quarto e tudo certo!”, ERRRRRRRRRROU. Minha primeira família aqui na Bélgica estava longe de ser a família perfeita, a ponto de eu não tolerar mais ficar por perto quando chegava o fim do jantar. Foram quase 4 meses tensos, trancada no meu quartinho de elfo doméstico e pensando: o que que eu tô fazendo com a minha vida?!
Pensando nisso, vou te contar algumas dicas básicas para o processo de procura de famílias & como conviver (ou não) com elas depois da sua chegada à casa.
Primeiramente, fora Bolsonaro, segundamente, para encontrar uma família nos países da Europa é bem simples: ou você cria um perfil no Aupairworld.com (existe também o aupair.com, mas esse eu nunca sequer me cadastrei, então não faço ideia de como funciona), ou você entra nos grupos de Facebook destinados a busca e procura de Au Pairs e Host Families, além dos “grupões”, em que sempre existem meninxs oferecendo as famílias quando o ano delxs está vencendo – geralmente no fim do ano letivo, meio do ano, verão europeu.
Dois dos grupos em que estou são o Au Pair in Belgium, foi neste que encontrei a minha primeira família, através de um post que eles mesmo fizeram em inglês. E também o Au Pair in Belgium/Belgie/Belgica, em que existem anúncios do mesmo tipo, alguns em holandês.
Crie uma mensagem ideal para enviar às host-families
Feito o seu perfil no AuPairWorld, o próximo passo é criar uma mensagem padrão pra você copiar e colar para todas as famílias, tanto as encontradas na plataforma, quanto as no Facebook – quando pelo FB, procure enviar um inbox e no comentário do post da família avisar que enviou uma DM (ou PV, private message). Não tem muito segredo, comece a mensagem com um “dear future host family” e comece a se apresentar: seu nome, nacionalidade, idade, profissão/graduação que teve no seu país, motivos para ter escolhido o país para o programa, algumas curiosidades sobre você que possam parecer interessantes para a posição de Au Pair e sua disponibilidade.
Não diga tudo, mas também não envie uma mensagem super curta, deixe a curiosidade no ar para que a família sinta-se atraída pelo seu “anúncio” e te procure para possíveis entrevistas.
Vou deixar a mensagem que enviei para as famílias, pode copiar, mas mude as informações para que elas sejam verídicas. É sério, não por mim, mas se você mentir, uma hora a família descobre – seja durante a entrevista, te stalkeando ou quando você estiver com “tudo ganho” na casa deles. Por exemplo, vi meninas que falaram da boa experiência dirigindo, mas não conseguiam pegar no volante e a família pediu rematch por terem mentido quanto a isso. Outros casos eram quanto a falar o idioma; juravam falar francês e com algum tempo na família, não conseguiam se comunicar com as crianças e também sofreram com o pedido de rematch. Se você não tiver muita experiência com crianças, fale, e se você não quiser contar e quiser arriscar (sinceramente, foi o meu caso), tenha em mente que você vai ter que engolir muita coisa e aprender na marra a trabalhar sua paciência durante 1 ano.
Dear family, My name is Ellen and I recently graduated in Journalism. I’m 23 years old, and already lived in Europe (London) for two years during 2008 and 2009 with my mom, step dad and aunt. I’m hoping to become an aupair in Europe because I really want to learn another language and live the experience with a local family. Also, I’m very responsable, funny and enjoy being around babies and children – I have a 5 year old brother and helped taking care of my younger cousins since they were born. Currently I’m not working as a journalist, I’m focusing on finding the right family and maybe getting in a post graduation program in Arts History – I really love art, museums, new places in and outside my hometown. Hopefully we can talk further and maybe I become your next aupair!
Sincerely, Ellen.
Esta foi a primeira mensagem que escrevi, lá em janeiro, quando meu foco principal era França. Eu estava bem doida e mandei mensagens para famílias na Itália (até então, não sabia que não era legalizado o programa lá e que, no máximo, eu conseguiria ficar 3 meses como turista), Bélgica, França e Alemanha. As italianas até aceitaram bem, mandaram textões com informações sobre eles, a vida na cidade, pediram mais curiosidades sobre a minha personalidade mas, no fim, é claro que não deu em nada. Inclusive, uma das famílias, composta por duas mães <3, é que me disse: se você não estiver vindo para aplicar para a cidadania italiana, você não consegue ficar mais de 3 meses, então não funcionaria. TRISTE.
Como fechei o match com a família errada (que me deu sinais desde o início, mas eu fechei os olhos)
Com a família que eu realmente fechei o match, na Bélgica, enviei uma mensagem bem rápida dizendo: “fui informada (provável que vi em algum post de um grupão) de que a sua família está buscando por uma au pair, aqui está o link do meu perfil no APW, se estiverem interessados”, isso aconteceu no dia 31 de janeiro de 2019, e apenas no dia 9 de março o host-father me respondeu, pedindo desculpas pela demora e explicando que a au pair deles não ficaria mais e então precisariam mesmo de uma nova para o final de abril. Legal, eu disse que ainda estava procurando, ele disse que a família falava holandês e se eu estava OK (eu disse que sim, não sabia que era uma língua tão horrorosa), perguntou minha experiência com crianças e eu basicamente disse o que está na minha mensagem padrão (meu irmão, meus primos e também algumas aulas particulares/reforço escolar que realmente ministrei durante meu ensino médio).
Acontece que eu já tinha dito duas ou três vezes as datas que eu estava disponível – no caso, minha formatura era no meio do mês de abril, eu poderia viajar logo depois. Mas resolvi viajar somente na última semana do mês e ficar 1 semana a mais para a festa de aniversário do meu irmão – mas o abençoado não gosta de reler mensagens, pelo jeito. Então ele me perguntou mais uma vez quando eu estaria disponível e respondi objetivamente: no final de abril.
Depois disso o ranço se instalou para todo o sempre. Por que? Porque ele respondeu: é só comigo ou essa não é uma conversa realmente fluente? mano do céu, não sei o que este cidadão quis dizer com isso até hoje, será que ele estava falando do meu inglês mesmo? Estou sentindo falta de mais interação, interesse e tal. Ou sua personalidade é tímida por natureza mesmo? Eu não sinto um mau pressentimento, mas também nada de especial em você… só estou checando.
FALA PRA MIM SE NÃO PARECE AQUELES CARAS DO TINDER QUE RECEBEM UM NÃO E QUE COMEÇAM A TE OFENDER, OU OS CARAS DA BALADA QUANDO VOCÊ DA UM FORA: VOCÊ NEM É BONITA, VOCÊ SE ACHA, NEM QUERIA MESMO, ESTAVA FAZENDO CARIDADE. HOMENS… O CÂNCER DA HUMANIDADE.
Na hora eu já meti um: excuse me? Mas estou te respondendo todas as suas perguntas. Eu tenho certeza que o amado queria que eu ficasse igual um bobo da corte babando o ovo dele, vai ver se eu tô na esquina, meu anjo!
Então o querido respondeu que não queria me ofender, mas sentia que era um monólogo e que não conseguia ver a minha personalidade. É claro, eu respondia as coisas e ele dormia e voltava a conversar no dia seguinte sem nem fazer perguntas. Só dava ataque mesmo. Creindeuspai!
Nesse momento já era pra eu ter metido o famoso louco e saído fora, mas não…
Então eu falei que era exatamente por conta disso que eu pedi uma chamada de vídeo, para ter uma conversa decente. E ele, claro, falou que era difícil porque os horários não batem. Complicado, né amores? A família vai colocar uma estranha dentro de casa pra cuidar dos próprios filhos mas não pode abdicar de um tempo pra fazer entrevistas aprofundadas e saber se não estão contratando uma psicopata. Realmente tenso.
Já que o queridão queria perguntas, mandei logo uma lista. Vou postar aqui em inglês mesmo, e você também pode copiar, acrescentar ou tirar algo dela. Em negrito vou adicionar algumas perguntas que são muito essenciais e eu como Au Pair de primeira viagem não sabia:
– Have you had aupairs before? Are they brazilian? Can I have their contact? – Are there near language courses? If yes, will it be paid by the aupair or by the family? If it’s not close, consider the same questions + what about the transportation to the language course? – In France they ask for a recognised course to get the aupair visa, what about in Belgium? Resposta: não precisa de um curso reconhecido, como acontecia no antigo processo para a França, mas é preciso de uma matrícula em um curso da língua da região em que a família mora, obrigatoriamente. No caso dessa família, na parte flamenca, o curso deveria ser de holandês. – Do the kids speak English? Until I learn your language would speaking English be a problem? – What do the kids enjoy doing? – Do you already have a schedule of work? – In France, kids don’t have school on wednesdays, does that also happen in Belgium? Resposta: as crianças só têm aula até meio-dia às quartas-feiras, o resto do dia estão livres, ou seja, ou os pais colocam em atividades ou elas ficam contigo. No caso dessa família, a avó chegava às 10am e eu tinha o resto do dia de folga. – Where is my room and do I have Wifi (and/or other amenities) and a private bathroom or a shared one with the kids? – How much are you willing to pay for the aupair and what method (weekly/montly, by cash or by a bank deposit)? – Do I need to drive? I do have a driver licence for 4 years now. Are the kid’s school close to the house? Do they do other activities? – What is there to do at your city? Is the house close to the city center and a bus stop or train station? – Can I ask for the food I’m used to from the grocery shopping? (I’m a vegetarian) Ah! gente, pelo amor de tudo, tenham semancol: você está indo fazer um intercâmbio cultural. Quer carne gaúcha? Fique no Rio Grande do Sul. Quer comer açaí na sobremesa todos os dias? Continue no Brasil. Fora isso, acho indispensável a família também ter flexibilidade, afinal eles estão na troca cultural também, e nem todos gostam de comer as mesmas coisas que eles. Eu comia, mas senti falta de coisas básicas, que pedi na primeira semana e não foram compradas durante os 4 meses que estive lá: salsinha, cebolinha, suco de laranja, limão, açúcar, feijão – sim, tem feijão aqui, custa tipo 2 euros e são facilmente encontrados na parte italiana dos mercados. – Will I be incluided on the families activities, as part of the family, or you rather prefere for you to have private family time? – Am I allowed to bring friends over (weekends) and family (vacations)? – Do I have a curfew? – Do I have my own bike? Aqui é bem comum a galera ter bike, tipo, não sei se existem famílias que cada membro não tem a sua própria. Na primeira família a bike da mãe era muito alta e me machucava, reclamei e compraram uma pra mim, sdds dela inclusive. – Will I do housework? If so, during my 4 working hours or as an extra? – Will I do extra hours? If yes, how much do you usually pay? –Do I have weekends off?
Ser responsável pela limpeza da casa da host-family
Essas três últimas perguntas são muito mas muito primordiais no momento de fechar o match. Durante o meu primeiro mês eu jurava que conseguiria colocar a família toda na linha com a questão da limpeza. Eu fazia a faxina de uma casa gigante, sozinha, e ninguém contribuía para manter a limpeza ou organização: na manhã seguinte tudo estava sujo, bagunçado, era como se eu não tivesse limpado na-da! Além disso, estava no meu schedule (claro, o não oficial, já que o oficial dizia que eu só trabalha 4h/dia, e não +7h/dia).
Horas extras (tudo o que vier depois das 4h/dia permitidas) e pagamento extra
Minhas horas extras seriam pagas com dias de folga, até então eu super achei que compensava, mas sinceramente… não! Além do pai contabilizar a hora do jeito que ele estava afim, eu nunca, em meses, recebi as prometidas horas de folga, foram mais de 90h trabalhadas de graça. Enquanto isso, a minha nova família me paga para fazer qualquer coisa que ultrapasse as 4h/dia permitidas por Lei. Recebo 6 euros por hora extra: eu mesma pedi para fazer a limpeza da casa, além de fazer outros serviços como: laundry da família, regar plantas, mercado se necessário e babysitting mesmo. Acho justíssimo, mesmo não sendo um valor alto, é um extra, eu não preciso sair de casa, pegar transporte ou tirar meu pijama, se eu não quiser.
A importância do final de semana de folga
E sério, final de semana precisa ser folga, minha gente! Não existe essa. Você está vindo ser Au Pair porque o seu sonho é ser babá de crianças gringas? Ou porque o seu sonho é ficar o dia todo servindo famílias gringas, pique governanta? Acho que não, né? Você está vindo para juntar grana, viajar, estudar, conhecer a Europa! E você JURA que se não tiver o final de semana todo livre você vai 1- ter fôlego pra isso 2- ter tempo pra isso 3- ter companhia de outras Au Pairs e/ou qualquer ser humano durante seus passeios? Resposta: não vai. Todos folgam aos finais de semana, é quando você descansa, caso não vá fazer uma viagem ou passeio. É quando tudo acontece, é quando as passagens de trem (weekend pass) são mais baratas, exatamente porque entendem que aos finais de semana as pessoas querem explorar a cidade, país, continente.
Quer um exemplo de uma amiga minha que eu não aguento mais dizer pra pedir rematch? A fofa veio através de uma agência e assinou um contrato que diz que teria 1 dia durante o final de semana e 1 dia durante a semana de folga. Em 1 mês de Bélgica ela conseguiu sair sozinha em dias de semana por… BRUXELAS, porque pra sorte dela ela mora no centro da cidade. Ela conseguiu ir a uma festa comigo e voltar cedo pra trabalhar virada no DOMINGO seguinte, também. Não basta não ter fds off, ela não tem coragem de pedir pra folgar domingo e segunda (um pseudo fds), sabe-se lá porquê. Gente, simplesmente não sejam essa pessoa.
Fique atentx e, se necessário, peça o rematch o quanto antes!
Um mês se passou na casa da família: limpeza sempre sendo feita, nunca mantida. Listinha de mercado enviada, mas nunca atendida. Família não saía muito de casa, pelo menos não nos poucos finais de semana que estive em casa, então eu não sabia muito da rotina do final de semana e dos hábitos de contato com amigos e familiares… parecia que simplesmente não existia.
A minha primeira bad foi no segundo final de semana. Eu havia viajado para Ghent no primeiro, e no segundo estava em casa mesmo. Era aniversário da menina mais velha e os pais decoraram tudo para o café da manhã (no sábado) durante à noite (de sexta), enquanto eu estava mimando ela, fazendo as unhas, para ganhar o coração da criança. Antes de dormir, enviei uma mensagem para a mãe dizendo que poderia deixar a menina me acordar na manhã seguinte, já que era aniversário dela. A menina me acordou, eu não estava entendo muito, mas parece que eles já haviam tomado café da manhã sem me convidar. Quando eu desci, como quem não quer nada, a família estava toda pronta pra sair. Claro, eu também não havia sido convidada, ou informada, ou nada do tipo. Como todos me olharam, eu sorri e disse bom dia, mas ignoraram e voltaram a fazer o que estavam fazendo. Isso mesmo, me deram um gelo e até hoje eu não sei o motivo.
Enquanto eu estava na cozinha sozinha tomando meu café, todos passaram por mim e saíram. A aniversariante foi a única que me deu tchau. Engoli seco e passei a manhã me excluindo no quarto. De quem eu não sei, já que eu estava sozinha em casa hahahaha. Algumas horas depois eles voltaram e o pai perguntou, por mensagem, se eu gostaria de ir com eles até o parquinho, já que a menina ganhou uma nova bicicleta. Eu fingi que nem li a mensagem, achei uma baita cara de pau, ainda mais que sabemos que host-family chamando pra parque/praia= trabalhar de graça.
De forma resumida, outros B.Os que tive que engolir antes de, finalmente, pedir meu rematch. Você deve estar se perguntando: por que ela aguentou tanta coisa se, desde o começo ela já estava infeliz? Resposta: eu fui como turista e apliquei para o visto já na Bélgica. Enquanto minha ID (visto) não saísse, eu não poderia sair da casa, com risco de cancelarem minha WP (permissão de trabalho) e cagar todo o processo – vou explicar detalhadamente sobre o processo de rematch em outro post. Então tive que aguentar bastante coisa por 3 meses, infelizmente.
Nunca saí com a família, nunca me convidaram ou mostraram que eu era parte da família
Tanto a família da casa, quanto os familiares que visitavam ou os amigos falam holandês e inglês. E, mesmo sabendo que eu não entendo nada de holandês, jamais fizeram a gentileza de falar em inglês para que eu me interasse nas conversas. No máximo oi e perguntas referentes à comida, tipo: você já comeu isso antes?
Eu nunca tive a opção de adaptar meus horários de trabalho, eles me enviaram enquanto eu estava no Brasil, dizendo que seriam 25h/semanais (já são 5h a mais do que o permitido) e que eu teria meus dias de folga para compensar. Enquanto eu não fui de fato pedir, nunca mencionaram, faziam vista grossa, eu trabalhava trabalhava e trabalhava…
Além do bom dia pela manhã, e às vezes “oi” durante o dia quando alguém chegava, nunca tive outro contato com eles. Não perguntavam como eu estava, se precisava de algo (mesmo quando eu comentava que estava doente, passando mal etc), se algo aconteceu. Detalhe: não queriam saber nada de mim, mas também nada das crianças. 100% das vezes que eu comentava algo do dia era uma iniciativa minha de puxar um assunto
Piadinhas infinitas sobre a grandiosidade da Europa e, principalmente, da Bélgica (com foco na região da Antuérpia) em relação ao resto do mundo. Piadinhas sem fim de como brasileiros são esquisitos, estragam todas as comidas, são doidos, têm costumes estranhos e não gostam do próprio país e por isso vêm para a Europa
Host-father mentiroso: mentiu sobre o tempo de permanência da primeira au pair deles, a única que não é brasileira; mentiu sobre meu schedule e também mentiu sobre a proximidade da casa com o “centro da cidade”. O centro em si, era a uns 15 minutos andando, já que o centro era a rua principal do vilarejo. Mas a cidade que ele dizia era a Antuérpia, segunda maior cidade da Bélgica. Por mensagem: 30 minutos! Na realidade: 15 minutos andando até o ponto de ônibus + 50 minutos de ônibus até a Estação Central, taokei?
Minha saúde e reclamações em último lugar na lista de prioridades, afinal, eles nem precisam que eu esteja inteira para cuidar dos filhos deles, né nom? 1 mês antes de vir para a Bélgica expliquei que não posso dormir com claridade, se não tenho enxaquecas fudidas. Com 3 meses na casa, crises de enxaqueca o amado não apenas não colocou o blackout que eu implorei, mas fez isso ser o motivo de uma discussão, já que considerou que não era urgente, uma vez que colocou um saco de lixo preto colado na minha janela e, naquele momento, a prioridade era a construção da piscina no jardim.
É sério meus irmãos e irmãs, meu blackout era o saco preto de lixo na janela
A lista pode continuar sem fim, mas acho melhor continuar essas questões pontuais em um post em que falo do meu processo de rematch.
Finalmente, encontrei minha família perfeita (espero)!
Já de saco cheio, estava decidida a trocar de família assim que meus documentos chegassem. Então fui em busca de famílias que atendessem aos meus requisitos:
pagar pelo curso de línguas e transporte mensal
morar em Bruxelas
falar francês
no máximo 2 crianças (dei preferência para meninos, muito mais fáceis de lidar, ainda mais que u tenho alma de moleque)
20h/semana e que me pagassem extras
soubessem à risca as regras do programa e não me explorassem
estivessem abertos a realmente ter uma troca cultural: me incluir na rotina e atividades, e me tratar bem, afinal eu quero viver em um ambiente gostoso e não trancada no meu quarto
ter uma casa limpa e tomar banho todos os dias
Encontradas as famílias que se encaixavam, segundo o perfil delas no APW, mandei as mensagens. Uma em especial me chamou atenção: mãe solteira. Depois do trauma de ter um host-father uó, a ideia de lidar com uma mulher parecia maravigold, até porque eu também sou filha de mãe solteira. Segue a mensagem que enviei:
Hello there, I am an aupair close to Antwerp and I’m currently looking for a family who speaks french and lives closer to Brussels. I take care of a 9 months old boy, a 3 year old girl and a 7 year old girl but learning french in a dutch-speaking family is a little difficult and also I often visit Brussels and felt in love with this part of Belgium. I’m brazilian, 23 and I speak English, Portuguese, and I can read in French but not yet communicate.
My mom was also a single mom of two so I understand how an aupair can be handy. Besides that, italian is also one of the languages I dream of learning, so it would be awesome to share the year with you guys. I can cook simple dishes (mostly pasta, vegetables and rice/beans) and I’m a vegetarian so cooking meet isn’t something I really do (except if you ask me to fry or bake something that is pre-made and won’t need me to taste if its good ). I’m a very clean person, as we all brazilians are, super tidy and organised- I do the cleaning at the house I currently live in. I have a driving licence but since I ride the bike with the kids here, I will need some patience until I get used to it again (I mean, I can perflectly drive but at the beginning I will do it slow).
If you’re interested in my profile let me know. I’ll be free from September, cause my family needs me during the summer holidays and I might also help them find their next aupair 🙂
No fim, foi a única família que fiz entrevista, foi tudo extremamente rápido (e em sigilo, já que minha família antiga não poderia saber do rematch antes dos documentos estarem prontos). Minha nova hosta é compreensiva, super justa, querida com os filhos e só precisa de mim porque acaba de se divorciar e a família toda mora na Itália. Enquanto durante 3 meses eu sequer fui até a esquina com a minha antiga família, em menos de 1 mês conhecendo a nova (eu ainda estava como au pair na antiga!) eu almocei, ri, compartilhei planos do futuro, fui a um festival, brinquei, levei em play date com a mãe e me apaixonei pela nova host family. É claro, eles não são perfeitos, eu também não sou, não moram lá muito perto do centro, mas estão em Bruxelas; embora falem francês, em casa o que predomina é o inglês (60%) e italiano (40%). Só ouço francês quando a hosta fala com a mãe dos vizinhos ou quando os meninos vêm chamar meu menino mais velho (9 anos) pra brincar.
A plenitude de alguém que estava, em um domingo, com crianças em um festival muito gostoso que acontece há mais de 40 anos em Bruxelas com as futuras host-kids. Eu construí esse projeto de barraca com o kid de 9 anos.
A boa parte é que logo começo meu curso de francês, poderei praticar na rua com a criançada vizinha, ou quando eu sair bater perna por Bruxelas. O importante é que até agora está tudo sob controle e tenho mais firmeza pra dizer que encontrei a família certa pra mim, apesar dos desafios que vêm pela frente. Let’s que let’s.
Para todxs potenciais au pairs, o Skype com a família é uma grande fonte de ansiedade e nervosismo. Não tem como ser diferente, afinal você está escolhendo uma família para não apenas trabalhar por 1 ano, mas para compartilhar sua vida e estar na mesma casa. Mas para os LGBTQ+, as entrevistas com a família são um buraco bem mais embaixo.
Sempre vejo nos grupões do Facebook alguns posts perguntando “como falar pra host-family que sou gay/bi/lésbica”? Algumas respostas são meio óbvias: chega, e fala. Mas para algumas pessoas, assim como se assumir para a família e os amigos, chegar soltando isso em uma entrevista de emprego (não deixa de ser), é bem complicado. Para algumas pessoas, o programa de au pair é muito mais do que sair pra viajar pros EUA/Europa, mas é a primeira grande oportunidade de realizar um sonho de conhecer outra cultura, finalmente poder aprender um novo idioma ou até de conseguir juntar uma grana necessária para mandar pro Brasil.
Pensando nisso, não é tão simples dar uma informação tão poderosa para desconhecidos que podem simplesmente te negar um match perfeito.
Vou contar sobre algumas experiências que li nos grupos da vida, incluindo a minha própria. No meu caso, o primeiro match que eu quase dei, com a família francesa de Blois, foi uma questão de feeling. Acreditem, esse negócio de feeling durante as entrevistas e na hora de escolher a família é real, por isso, façam muitos Skypes, não tenham medo de conversar, perguntar, dar risada e tentar captar o máximo da vibe da família que você conseguir! Mas voltando ao assunto principal… a família era composta pelo pai, mãe, cachorro, uma filha de uns 14 anos, um de uns 16 (que não morava na casa, estava no College, ou algo do tipo) e dois menores que eram adotados, um menino e uma menina, nascidos no Quênia. Logo pensei: uma família que já têm dois filhos biológicos adotou outros dois filhos (não sei se quando bebês, ou já grandes), então devem ser no mínimo mente aberta para novidades e diferenças, certo? Acho que sim.
Não fui para a família, nunca trouxe o questionamento LGBTQ+ para as conversas. Eles, por outro lado, já me perguntaram no fim da primeira entrevista: “pergunta pegadinha: o que você acha sobre o Bolsonaro, presidente do Brasil?”. Nesse momento voltei a pensar: nenhum ser humano gringo que apoia o asno me perguntaria isso, né? Espero que não. Então eu sutilmente desci a paulada no Bolsonarcos, dizendo que ele está destruindo o país.
Nota: isso foi em janeiro, eu mal sabia o que estava por vir (do governo Bolsonarcos)… risos de desespero
Enfim, acabei não indo para a França e conversando com uma família que se tornou minha atual host-family na Bélgica. Família composta por: pai, mãe, cachorro, duas meninas e um bebê menino. Os pais super jovens, viajam até que bastante (viajavam, né, depois que cheguei nunca nem vi. Pelo menos, não comigo), apreciam uma boa bebida alcoólica, já foram na Tomorrowland belga, brasileira, baladas em Ibiza, shows de techno etc. O que você pensa? “OMG! Família liberal, cool, jovem, vida loka, vamos beber juntos, sair, conversar, rir muito, que alegria”. Eu até falo de alcóol com meu hosto, antes, mais. Antes, eu conversava quase todos os dias com ele por mensagem, até mostrei as caixas de Absolut que eu levaria para o meu baile de formatura – sdds, inclusive.
Chegando aqui, ainda continuei pensando que eram bem liberais. Já bebi champanhe no horário de trabalho com eles e as crianças (elas, bebendo champanhe infantil); já cozinhei com o hosto bebendo uma taça do tamanho da minha cabeça de gin, fiquei bêbada, espero que ele não tenha percebido, inclusive.
Mas como nem tudo são flores… certo dia, eu estava brincando com as crianças e, a menina de 4 anos, colocou um arquinho de lacinho na cabeça do bebê. Eu não liguei, não achei graça, não achei nada: era um arquinho na cabeça de um bebê – acabou. Nenhum adulto viu a cena, o bebê tirou o arquinho em determinado momento e vida seguiu. Outro dia, na mesma semana, provavelmente, a melhor amiga da mãe estava com ela na casa, até que eu coloquei o arquinho na cabeça do bebê, pra irritar ele mesmo, de brinks, porque sabia que ele iria tirar.
Nesse momento vejo as duas falando alguma coisa em holandês, notoriamente sobre mim ou sobre algo a ver comigo. Então perguntei em inglês: “o que vocês estão falando?”. A mãe já tinha saído da sala, a melhor amiga respondeu: “estamos falando que o bebê vai virar gay”. Fiquei tão indignada que eu só consegui soltar um “por que?” e ela disse “porque você está colocando esse arquinho, é de menina”. É claro que eu comecei a dizer que é um arquinho, apenas um arquinho, e que ninguém se torna gay, a pessoa no máximo nasce gay e um dia acaba descobrindo isso e… E DAÍ?
Ela ficou poker face e eu também. Mas depois desse dia sentia que, com certeza, eles não são LGBT friendly.
PACABÁ, descobri, ainda, que a parte que eu moro na Bélgica é liberal, eles são de direita e, inclusive, são xenofóbicos disfarçados: as piadinhas com brasileirxs, as piadinhas com qualquer outra nacionalidade, a necessidade de dizer como a Bélgica e a Europa são o centro do mundo, o desmerecimento com o meu trabalho, tanto como au pair quanto como jornalista, além de críticas RIDÍCULAS sobre imigração e controle nos países “de primeiro mundo”.
Pois então, o feeling pode errar, e se eu soubesse dessa possibilidade de ter sido tão Alice, teria perguntado sim na tora: o que vocês acham sobre os direitos e a luta LGBT?
Esses são alguns dos conselhos que tenho lido nos grupos:
coloque uma bandeira LGBT atrás de você durante os Skypes (ps. eu trouxe a minha, junto com a do Brasil, pensei em pendurar mas fiquei receosa, acabei indo para a Parada Gay e nunca pendurando… que erro – ou não né)
coloque no seu perfil que você é LGBT friendly. Não sei se em uma frase, uma hashtag ou em uma foto. Por exemplo, no meu perfil do couchsurf eu coloquei nas preferências “direitos LGBT”, porque eu não gostaria de hospedar ou ser hospedada por um homofóbico JAMAIS!
se o match já veio, você já está na casa/fez a entrevista pessoalmente, como acontece em rematches na Europa, solte uns: my ex girlfriend/boyfriend… bla bla bla e continue falando como quem não quer nada
É realmente FROID ter que viver em um mundo onde existe um post de “como encontrar uma família não-homofóbica”, quando isso não deveria ser um problema ou um questionamento, afinal, ninguém chega e te pergunta: mas então… você é hetero? – Mas, infelizmente, estamos aqui vivíssimos neste mundão podre, então todo cuidado é pouco, e é melhor a gente se fortalecer e se proteger escolhendo famílias minimamente decentes, e as que são homofóbicas que se estrebuchem.
NOTA IMPORTANTE: em alguns países, como nos Estados Unidos, perguntar a orientação sexual numa entrevista de emprego é proibido por lei! Ao mesmo tempo, no Reino Unido, ou até no Brasil, algumas empresas de recrutamento passaram a perguntar nos questionários sobre a orientação sexual, gênero, raça e religião dos candidatos – o intuito não e descriminar, muito pelo contrário, mas conseguir preencher vagas que buscam por candidatxs naquele perfil (ex: enfermeiras mulheres para cuidar apenas de pacientes mulheres) e/ou atingir cotas de diversidade dentro de empresas.
Então, se uma família babaca resolver te perguntar sua orientação sexual saiba que: TÁ ERRADO, e denuncie! Pior ainda se for num sentido negativo ou preconceituoso. Não se cale!
Se você tiver alguma dica para adicionar ao post, me manda! ❤
Pra quem me conhece, não é segredo que eu sempre quis aprender o máximo de línguas e conhecer o máximo de países e culturas possíveis. Ainda na Universidade, comecei a estudar francês no penúltimo semestre, na esperança de aprender algo antes de tentar uma pós/mestrado na França. Mas é claro que aprender uma língua não é tão rápido e fácil assim (ainda mais se você for um pouco preguiçosa, como eu era), e acabei fazendo apenas um semestre do curso – eu fazia o curso oferecido pela própria UEPG, o “Clec”, que é um curso voltado para toda a comunidade (acadêmica ou não), ensinado pelos alunos de Letras. Eles têm a opção de vários níveis da língua espanhola, francesa e inglesa. Também fiz um ano de inglês, pra refrescar minha memória com a gramática, mas não foi muito útil porque eu sempre ia pelo instinto e não estudava, rs.
Quando então decidi fazer Au Pair e aprender uma língua, é óbvio que a primeira opção era me mudar para a França. A França é charmosa: a comida, a língua, a música, a arte, a moda, as parisienses… tudo chama a atenção. Eu já me imaginava aprendendo a língua e andando por aí com um batom e boinas vermelhas, comendo croissant e entendendo tudo o que o filme da Amelie falava, sem legendas.
Assim como para qualquer país fora dos EUA, o primeiro passo para procurar uma família é buscar no site AuPairWorld.com. Criei uma conta ainda no início do último ano da faculdade, só para testar como funcionava, dar uma olhada no fluxo de famílias da França e ver se alguém tinha interesse em mim, mesmo que eu não fosse para o país ainda naquele ano (2018). E essa é minha primeira dica, com base na minha experiência: não tranque a faculdade para fazer o intercâmbio.
Você não vai ser formar com a sua turma original. Não liga? Ok, leia o próximo motivo
Se você for como eu, vai ser bem bad… imagina só sair da facul, viver um lindo sonho internacional e se dar super bem lá? Quando chegar ao fim do intercâmbio, você vai precisar trancar tudo pra voltar à sua rotina
Não liga? É só pra aprender a língua? Ok. Então vai, anjo, mas não diz que não te avisei
No início de 2019 comecei a procura real oficial. E não estava nada fácil de encontrar famílias na cidade que eu queria tanto morar. E adivinha qual cidade? Paris, claro. Hoje penso que os dois maiores motivos são: não falo francês (o que facilitaria a comunicação com crianças/famílias que não buscam por Au Pairs para ensinar inglês dentro de casa) + janeiro é o meio do ano letivo europeu (e americano), então essas famílias, na maioria dos casos, já estão com uma Au Pair cujo contrato irá acabar com o fim do ano escolar… lá pra julho.
Enfim, encontrei uma família em uma cidadezinha chamada Blois. Pensei: maravilha! Apenas 2h de ônibus de Paris, dá pra ir sempre, uhul! O feeling bateu logo na primeira entrevista por Skype. A família era bem comunicativa e amigável: pai, mãe, um cachorro, uma filha de uns 14 anos, uma de 12 e um de 11, algo assim, nessa faixa etária. Os dois últimos filhos eram adotados do Quênia. Meu trabalho seria acompanhar os dois mais novos nas atividades extra curriculares e fazer companhia, já que eram pré-adolescentes e não necessariamente precisariam de uma “babá”. Eles não falavam inglês, só a mais velha, mas cada um deles tinha algo em comum comigo: a menina mais nova jogava handebol; o menino era super ligado em esportes também, e extremamente carinhoso e educado.
Euzinha sorridente em Paris
Os pais também eram gentis. Parece bobeira, mas se nos primeiros Skypes a família se quer faz seu coração se derreter (mesmo que seja falsidade, gente), sinal bom não é. É o mínimo que você precisa exigir de pessoas com quem você vai, literalmente, compartilhar boa parte da sua vida durante o próximo ano. Então, depois de conversas e risadas, praticamente fechamos o match. Aí é que veio o problema… eu fui 100% inocente. Eu seria a primeira Au Pair deles, então no início imaginei que era inocência da parte deles também, mas no fim percebi que a única boba era eu.
No caso, eles queriam enviar o contrato antes mesmo de conversarmos assuntos muito importantes como: qual será o pocket money? Irão pagar meu curso de francês? Irão pagar pelo transporte para o curso de francês? O curso é reconhecido pelo consulado para me permitir renovar o visto por um segundo ano na França*? Poderei pedir minhas comidas vegetarianas/produtos de higiene pessoal na lista de mercado da família? Quantas horas serão trabalhadas, onde está o schedule? Se eu fizer horas extras, irão me pagar quanto?
Se você pensa que está sendo babaca de fazer essas perguntas “nada delicadas”, você está erradx. Eu pensei, e eu me lasquei por isso. Gente, ninguém é bobo, todos sabem que isso é um trabalho, você está indo cuidar das crianças da família não porque você gosta de fazer caridade, mas porque precisa desse dinheiro para alguma finalidade: mandar para o Brasil, juntar para estudos, viajar, comprar brusinhas… não importa, você não deve ter vergonha de perguntar pelos seus direitos, a família é que deveria ter de ficar omitindo isso e depois achando que está te fazendo um favor.
Finalmente, fui soltando essas perguntas por mensagem e, como tudo na França, até para responder uma simples mensagem demoraram. Foi mais de um mês para correrem atrás de coisinhas que em menos de uma semana no Brasil seriam resolvidas… ô povo lento!
No fim, descobri que era bem carinho pra ficar saindo da cidadezinha até Paris, então lá iria todo o meu salário só em condução. Além disso, eu estava ainda sob a lei antiga, que mudou cerca de um mês depois que eu comecei a conversar com a família. Na lei antiga, eu deveria receber no mínimo 60e por semana e trabalharia 25h/semana; além disso, o curso deveria ser reconhecido pelo Campus France – que era parte do processo, antes de chegar no Consulado e pegar o visto – e, geralmente, esses eram os cursos mais caros, pagos por trimestre. Minha família queria pagar o mínimo, não iriam pagar pelo curso, não iriam pagar pelo transporte, muito menos por qualquer documentação. Iriam permitir minha lista de supermercado e sim, eu faria horas extras, e receberia dias de folga equivalentes. Aí é que vem a pergunta: o que eu vou fazer com pouco dinheiro e muita folga? Ir a falência, provavelmente. Comecei então a luta incessante para que eles pagassem pelo menos o transporte e aumentassem o pocket money. Eles negaram. A Lei mudou, tiveram que pagar exatamente pelo valor que eu pedi, rs. Aceitaram pagar o transporte, mas só!
Se quiser saber tim tim por tim tim como funciona o processo para ser Au Pair na França com a mudança da Lei, dê uma olhadinha no blog Dendê na Gringa, clicando aqui.
Porém a teimosia deles e a lerdeza para irem atrás era tanta, que foi me dando um bode, um estresse… resolvi que não iria mais para aquela família. Já estavam abusando da minha boa vontade antes de iniciar o processo, imagina quando eu chegasse lá?
Outro fator que contribuiu, é que, enquanto estava loucamente procurando por famílias em Paris, eu também estava procurando por famílias em Bruxelas, capital da Bélgica. Bruxelas fala francês, então…
Eu estava em um grupo de oferecimento de famílias no Facebook o Au Pair in Belgium; além do grupão de brasileiras na Bélgica, que vez ou outra também coloca anúncio de famílias para ajudar quem quer encontrar uma, o Brazilian Au Pairs in Belgium. No meio dessa brincadeira de atirar para todos os lados, mandei por inbox o meu perfil para uma família belga, que só me respondeu muito tempo depois, justo quando eu já estava de saco cheio da família francesa. Parece que caíram do céu. Ofereciam muitos benefícios, mas tinham dois defeitos: não estavam na parte de língua francesa, e sim próximos da Antuérpia, a parte flamenca, que fala holandês. Além disso, não seriam apenas dois pré-adolescentes fáceis de cuidar, mas três crianças: um bebê e duas meninas novinhas.
Tratei os benefícios com mais peso e resolvi que sim, fecharia com eles. Mas foi mais um questão de desespero para sair logo do Brasil do que qualquer coisa, pra ser bem honesta. Eles pagariam metade de toda a documentação para a Work Permit (permissão de trabalho), visto e passagens + metade do valor do curso de holandês + o transporte para o curso + o meu celular. Pensei: uau, tirei a sorte grande!
Euzinha sorridente em Brugge, uma cidadezinha fofura da Bélgica
Diferente da França, em que o pocket money mensal fica em 320e, na Bélgica recebemos 450e, fora o plano de saúde da família, que por Lei deve nos incluir, e os benefícios que variam de família para família. Outra grande diferença é que na França, com a nova Lei, o trabalho é de 25h semanais, e na Bélgica 20h. Mas é claro que nem tudo são flores e praticamente nenhuma família cumpre as 20h semanais… acontece que as horas extras são pagas, ou recebidas em forma de dias de folga.
Na minha família, acordei trabalhar 25h semanais e, caso passasse disso, poderia escolher dias de folga ou dinheiro. Além disso, eu teria durante o ano o direito de 15 dias de férias remuneradas.
No fim, vim para a Bélgica com o visto de turista, pois a família precisava de mim o quanto antes, já que a Au Pair deles estava com o visto para vencer. Assim como eu, todas as Au Pairs anteriores fizeram o processo entrando no país como turista e aplicando para a documentação daqui: errado, não é, mas não é ideal, e nem do agrado da Imigração.
Se você vier para a Bélgica como turista e quiser aplicar para o visto daqui, tenha em mente:
O visto de turista tem duração de 3 meses para o território Schengen, que abrange 26 países (meu, é muito país!) da Europa, ou seja, não adianta sair da Bélgica e voltar, o visto não será “reiniciado”
Você tem o período máximo de 3 meses para: ter todos os documentos exigidos pela prefeitura local (na minha: antecedentes criminais apostilados e traduzidos + diploma traduzido + certificado de um médico belga comprovando que estou saudável para trabalhar + cópia do passaporte) e aplicar para sua Permissão de Trabalho; após ela chegar, você deve imediatamente aplicar para o pedido de visto tipo D, e então aguardar sua ID chegar
Algumas famílias são tão lerdas como famílias francesas e perdem a noção de tempo, demoram para solicitar os documentos e o período de 3 meses não é suficiente. Nesse caso, ou você sai do território (volta para o Brasil, vai para algum outro país que você possa ficar legalmente durante o período dos documentos saírem…), ou você acabará ilegal, e sem a menor chance de aplicar para o visto, além do risco de ser deportadx
Dependendo do tempo que a sua Permissão de Trabalho demorar a ficar pronta, você pode ter bem pouco, ou nada, de tempo para continuar no país após o seu 1 ano de Au Poor. No meu caso, demorou pouco menos de 1 mês, então me restou pouco mais de 2 meses para continuar no território Schengen após dia 12 de maio de 2020 (data em que a Permissão termina)
Após 3 meses como turista no território, você deverá sair imediatamente e só poderá retornar após, no mínimo, 6 meses
Trarei em tópicos objetivos outros motivos legais para vir para a Bélgica (apesar de ainda amar a França. FRANÇA, VOCÊ É TUDO PRA MIM!!!):
A burocracia lenta existe, isso deve ser algo natural de europeus, mas não é tão lenta quanto na França!
É menos complicado, segundo relatos de coleguinhas na FR, aplicar para o visto de Au Pair estando na Bélgica do que estando na França
O pocket money é 130e maior do que o da França
O sistema de saúde belga é melhor, mais rápido e, para nós, garantido pelo plano de saúde particular da família – enquanto na FR você deve esperar sua carteirinha “de saúde pública” chegar, e já ouvi casos de uma demora de nada menor do que 11 meses
A Bélgica está estrategicamente bem localizada, geograficamente falando, é bem barato viajar saindo daqui – tanto de ônibus, quanto de avião ou trem – e faz fronteira com vários países: Alemanha, França, Holanda, Luxemburgo
É um país que fala três línguas: holandês, francês e alemão. Mas cada uma em uma região
Mas como eu gosto de reclamar, aí vão alguns poucos motivos para não querer vir para a Bélgica:
A região flemish, ou seja, a região que fala holandês, é a parte mais rica e, consequentemente, a que mais têm famílias com Au Pairs. Isso não é coincidência, é a região liberal e de direita da Bélgica – eu não tinha parado para pensar ou pesquisar sobre essas questões políticas porque, além de detestar falar de política (a não ser que você me convide para xingar o Bolsonaro, aí eu vou), eu tinha a fantasiosa ideia de que na Europa tudo era perfeito e comunista KKKKKKKK ALOKA
Nessa mesma região as pessoas são PORCAS. Sim, elas são muito nojentas. Para lavar louça, fazem igual em desenho animado: fecham a pia com o ralo, enchem de água e sabão e lavam tudo ali naquela água: sem enxaguar. Além disso, não tomam muitos banhos, e não importa se é verão ou inverno, tá meninas?
Eles são mais frios. Então se você, assim como eu, é aquela pessoa carente, e que gosta de conversar, socializar, rir feito uma boba alegre… vai se dar mal aqui assim como eu. Povo aqui está pra poucas ideias. Sem risadinha, mermão.
A língua deles é uma mistura de alemão com álcool. RISOS. Eu aprendi isso no final de semana que fui para a Alemanha, eles adoram zombar que holandês é uma pessoa falando alemão enquanto está bêbadx. E é mesmo, língua feia, viu? E olha que eu acho todas as línguas a coisa mais linda do mundo…
Estamos longe da Itália, ao contrário de quem está na França… então é bem carinho viajar pra lá
Bom, acho que é isso por enquanto. Se quiser saber mais sobre a minha experiência como Au Pair na região flemish, aguarde os próximos posts… QUEIMAAAA QUENGARAL!
Se você jogar no Google, encontrará centenas de blogs de aupairs espalhadas pelo mundo – principalmente pelos EUA e nos principais países da Europa – mas como eu não poderia deixar de falar sobre o que é Au Pair (no meu vocabulário, AuPoor), explico sobre o programa baseado na minha visão.
Au Pair é basicamente um intercâmbio no qual a pessoa vai para um país estudar a língua local (ou em alguns casos, fazer um curso aleatório, tipo artes ou sei lá), morar com uma família e receber uma mesada. Em troca disso, cuida-se dos filhos da família. Aí que está a grandiosa felicidade rs rs rs… algumas pessoas vêem um programa como uma forma de realizar o sonho de ser intercambista mas, na minha opinião, não é bem assim, meus anjos.
Antes de você concluir que esse intercâmbio é pra você, pare e pense em alguns pontos muito importantes. Ah! Sim, eu sou do tipo de pessoa que fala os pontos negativos primeiro, se você tiver estômago, aí sim eu libero a parte top/top:
Você fala algum idioma, além do português? Não vale verb to be!
Você é resiliente? Não adianta dizer que sempre viaja pra Disney com toda a família e que aguenta tranquilamente passar 1 semana sem arroz e feijão
Você já teve contato com outras culturas extremamente diferentes da sua e, mesmo assim, soube respeitar e entender?
Quando o assunto é Au Pair na Europa: você sabe que a “mesada” é, literalmente, mesada, e não um salário? (Desista da ideia de juntar dinheiro e voltar rycka pro Brasil)
Será que você tem saco pra cuidar de uma criança com a criação completamente diferente da brasileira?
Se você não desistiu de ler meu post enquanto pensava “o que essa menina tá fazendo lá, se só tem pedrada nesse intercâmbio?”, continue até o final.
Eu aprendi a falar inglês enquanto morava em Londres, dos 12 aos 14 anos, e quando voltei para o Brasil continuei estudando em escolas de línguas. Tentei aprender alemão, desisti. Tentei aprender francês, até estava indo bem, mas tive que pausar por causa do TCC. E disso tudo percebi que, pra mim, um idioma só se aprende de verdade quando você está imerso no país, na cultura e, principalmente, aberto para ser ensinado na prática. Sem o inglês, eu dificilmente conseguiria e teria coragem de tentar me jogar em um país que a língua oficial não é o próprio. Na Bélgica, são três os idiomas oficiais: holandês (na região que eu moro), francês e alemão. Então se você pretende ir para algum país nesse estilo, sugiro que se jogue na língua local antes de começar a procurar famílias, ou que tenha o inglês intermediário, no mínimo.
Não desiste de mim, estou dizendo isso porque em um mês de Bélgica eu já me lasquei, e olha que meu inglês é fluente! “Nossa, as pessoas fora do Brasil falam inglês, em qualquer país”. Errou. Eu pensava isso também, afinal eu só viajava para lugares extremamente turísticos e por um curto período de tempo. Até chegar aqui e perceber que no mercado, na escola das crianças, na farmácia, na fila da loja etc quase ninguém me entende. É desesperador. NEM AS MINHAS CRIANÇAS ME ENTENDEM DIREITO, e eu sou a 5ª Au Pair da família – todas falavam inglês, assim como eu.
Enquanto pesquisava sobre as famílias, sempre deixei claro que sou vegetariana há 10 anos, e sempre me tranquilizavam, já que o que mais comem por aqui são carboidratos (macarrão, pão…) e queijo. Nossa, eu tava feita! Errou. Eu amo macarrão, durante a faculdade foi isso que me sustentou. Mas imagina você comer macarrão 5 vezes por semana. Toda. Semana. E o almoço é sanduba, bebê. Desiste do arroz e feijão. Desiste do prato com ovo frito com bife acebolado.
Mas ok, vou soltar umas coisas boas antes que eu assuste todo mundo. Ser vegetariana fora do Brasil é TOP! Eu já estava feliz que durante os últimos anos os cardápios melhoraram pro nosso lado. Existem mais opções nos mercados e restaurantes e tudo mais, mas nada se compara às proteínas vegetais que ando comendo por aqui… uma coisa mais diferente e gostosa do que a outra, parece comida de verdade, e não aquele papelão hidratado que eu estava acostumada.
Mesmo assim, tá meio complicado comer tanto macarrão, purê de batata (batata e cenoura amassada, sem sal, sem leite, sem manteiga) e pão. Então é aquilo, a abertura pra uma nova cultura já começa da mesa.
Na família que eu moro, tenho meu quarto no segundo andar, ao lado do quarto das crianças. Tenho um banheiro (maior que meu quarto, é muito chique) só pra mim, muito Pinterest ele, por sinal. Não posso reclamar da minha acomodação mas, claro, se fosse um studio (na França o costume das Au Pairs morarem separadas da casa dos hosts é mais comum) ou um quarto bem mais privativo eu acharia melhor. Tenho minha privacidade muito bem garantida – isso inclui sair e voltar a hora que eu quiser, mas você precisa conversar isso com a família antes, pois nem todos têm essa sorte – e também, um ponto importante: posso tomar banho sem ninguém me controlar.
Isso foi uma brecha pra eu falar sobre banho. EUROPEUS, TOMEM BANHO! Brasileiros, acostumem-se, só a gente toma banho todo dia. Nem europeus, nem estadunidenses, nem asiáticos… ninguém toma tanto banho assim. É bem comum tomarem banho a cada dois dias, ou alguns por semana… por mês, quem sabe. São casos e casos. O mal cheiro no transporte público é fróid. NOSSA, MAS VOCÊ NÃO FALA PRA TOMAREM BANHO AÍ NÃO? Eu estou no país deles, na rotina deles, eles não viram pra mim e falam: “Ellen, para de tomar banho todos os dias, ok? Não é legal nem normal”. Então eu não interfiro.
No site http://www.aupairworld.com você encontra os países em que o Au Pair é regulamentado, bem como as horas trabalhadas e o famoso pocket money. Na França, a mesada é de 320 euros por mês, na Bélgica são 450 euros – esses valores são o salário mínimo. Cada família pode escolher pagar isso ou mais, vai da sua sorte. Além disso, eles são obrigados a te dar moradia, quarto e banheiro (no máximo dividido com as crianças) individuais e a alimentação. Alguns são mais generosos e pagam transporte para o curso de línguas, o próprio curso, a linha de celular e os adorados extras (quando você cuida das crianças por mais horas). Com esse valor, é possível se virar muito tranquilamente, ainda mais se você for uma capricorniana como eu.
Com 450 euros eu faço 4 viagens tranquilamente, mas se você quiser torrar tudo em brusinha na Primark, não garanto que vai colecionar muitos carimbos no passaporte.
Agora sobre cuidar de criança… paciência, irmãos! Aqui as crianças e os bebês são MUITO mais independentes do que no Brasil. Meu bebê de 6 meses dorme sozinho, a gente coloca no berço e ele fica lá. As meninas também. As crianças vão pedalando pra escola, eu só acompanho, já que uma delas tem apenas 3 anos, e depois deixo o bebê na creche. Isso não é comum no Brasil, mas poderia ser. Por outro lado, por ter uma pessoa “servindo” elas, prepare-se para buscar água quando falarem baixinho: tô com sede (em holandês), tentar convencer a juntar os brinquedos e a não surtar quando se cobrirem com a mesma manta que o cachorro dorme.
Agora os pontos positivos?
Você vai sair da sua zona de conforto. Vai conhecer não apenas a língua local, mas quando estiver no ponto de ônibus vai passar o mapa mundi diante de você. Vai conhecer gente de todos os cantos, algumas abertas a conversar e trocar experiências, outras que vão esbarrar em você e nem te pedir desculpas… logo, você vai saber: aquela dali era francesa. Você vai comer comidas sem tempero um dia, mas em outro vai experimentar um tempero de um país que nem sabia que existia. Vai ouvir experiências dos seus hosts nos trabalhos deles – a minha hosta está fazendo um curso pra aprender a cortar carne, o meu hosto é da área de finanças, mas sabe trocar o encanamento do esgoto da casa, ele também está construindo uma piscina gigante – sozinho.
Você vai ver que o mundo é muito mais do que comer arroz e feijão todos os dias. E que corote é bom, mas beber vinho francês por 2 euros é melhor ainda – não da ressaca! Vai aprender que com 70 euros você passa um final de semana em Paris, ou em Bruxelas, vai conhecer brasileiros de todas as partes, que moraram em vários outros países e que durante a sua tour por Paris, vai tirar fotos maravilhosas suas, porque ela é fotógrafa. Vai aprender a se comunicar com um bebê de 6 meses que não fala, e também a traduzir uma fofoca entre sua hosta e a melhor amiga dela (em holandês) e pensar: he he he eu sei que estão falando de mim, mas vou fingir demência.
Ao mesmo tempo, você vai perceber que o Brasil não é tão flop assim. As calcinhas são mais bonitas, os sutiãs e biquínis também. Havaianas todo mundo usa, mas aqui tem muita imitação – saudades Havaianas! Comer macarrão é bom, mas que saudade de tapioca! Sorvete italiano, realmente italiano, é chique demais, mas açaí com granola… os nossos doces são doces de verdade, aqui eles perguntaram qual o índice de diabetes no Brasil, depois que fiz um bolo de cenoura com, literalmente, todo o açúcar da casa (e faltou 1 xícara).
Você está sozinha. Mas tem o mundo ali na esquina pronto pra te fazer companhia, ou pelo menos te ensinar que você pode se tornar a sua melhor companhia – ainda mais quando nem todas as suas últimas companhias de viagem foram das mais agradáveis (isso fica para um post-perrengue).
Quem diria que a essa altura do campeonato e da modernidade da era da Instagrammers e Youtubers eu voltaria para as origens das influências digitais… aqui estou eu, escrevendo um “bom e velho” blog!
Em dezembro me formei em Jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e, enquanto estava me despedindo da vida universitária, dos rolês no Tradi e dos jogos mais insanos da minha vida, eu também estava 100% apavorada pelo que a vida iria me trazer dali pra frente. Sem aulas, sem as responsabilidades acadêmicas e, em troca, com responsabilidades da vida adulta.
Onde eu iria morar? Será que eu seria efetivada no meu estágio em Ponta Grossa ou teria que voltar a morar com a minha mãe? Será que se eu voltasse a morar com a minha mãe eu demoraria a encontrar um trabalho na minha área ou encontraria meu dream job rapidão KKKK ILUDIDA? A real é eu estava realmente surtando com tantas incertezas. Surtando tanto que acabei deixando em stand by um desejo que eu tinha desde que voltei a morar no Brasil, em 2010: eu tinha que voltar pra Europa!
… se alguém que está lendo isso não conhece minha história, eu explico:
Eu nasci em Mogi das Cruzes-SP, cresci até os 10 anos em Guarulhos-SP, voltei pra Mogi por meio ano, enquanto minha mãe estava trabalhando em Londres, fui morar por um ano em Santos Dumont-MG e depois fui morar dois anos em Londres, com a minha mãe e minha tia-irmã. Até que em um belo dia, a senhora minha mãe resolveu voltar para o Brasil… Mogi? Não! RIO DE JANEIRO. Tipo? Ok, fomos. Odiei. Do inverno de Londres para o verão do Rio de Janeiro em JANEIRO! Calor infernal, sotaque esquisito e pessoas me zoando por falar “poirta” na escola. Fiquei meio ano no Hell de Janeiro e voltei a morar em MG. Depois disso foi maior confusão, fiquei entre Mogi das Cruzes (nem a minha mãe aguentou o Rio) e Santos Dumont, até parar em Ponta Grossa para cursar Jornalismo.
… de volta ao foco desse post:
Eu me encontrei em Londres, apesar do pouco tempo, e sempre pensei que cidade alguma do Brasil era pra mim white girl problems . O plano era ter feito a faculdade de Jornalismo de Moda na UAL – University of Arts London, mas não foi po$$ível. Então o plano virou fazer a pós-graduação lá, mas também ficou inviável. Como é que eu ia vir pra essa joça de Europa a) sem ter cidadania de algum país da União Europeia b) sem ter grana pra ser estudante c) sem estar ilegal (sou cagona)
Pensei várias vezes em fazer o tal de aupair, mas ao mesmo tempo eu (e várias pessoas com quem eu falava disso) me diziam que eu não deveria largar meu diploma quentinho de Jornalista graduada por uma das melhores universidades públicas do país pra limpar bunda de neném gringo. Sinceramente, complicado né beninas… mas to aqui!
Essa sou euzinha em frente à escultura de Brabo jogando a mão do gigante Druon Antigoon em direção ao Rio Escalda. O gigante cobrava pedágio para que as pessoas entrassem na cidade, até que o Brabo desafiou ele e PEY cortou fora a mão – que deu o nome de origem á cidade: Antuérpia (mãos arremessadas). Em outro post eu conto+
A situação no Brasil não tá fácil nem pra engenheiro da USP, imagina pra Jornalista alô Bololoro… já estava desanimada com o cenário antes mesmo de terminar o curso mas, enquanto esperava pela colação de grau (que seria no fim de Fevereiro), já percebi que seria complicado encontrar algo na minha área, mesmo morando próximo a São Paulo – foram mais de 50 currículos enviados, 2 respostas: em uma, a mulher falava nada com nada, atrasou a entrevista que seria por Skype em mais de 2 horas e no final ficou de retornar a ligação que estava falhando. Na segunda, fui indicada a uma vaga sensacional, fiz a entrevista pessoalmente, soube que gostaram do meu perfil (e principalmente da minha primeira Iniciação Científica da graduação) e estava super animada.
Em paralelo, estava conversando com famílias na França – meu sonho é aprender a falar francês – e na Bélgica, só porque na Bélgica tem uma região que fala francês. A família da França estava me enchendo a paciência desde o início, mandei pastar. A da Bélgica ficava em uma região que falam holandês. Pensei: se for pra se lascar, melhor se lascar em Euro – sem aprender o meu tão sonhado idioma – do que aqui no Brasil esperando mais tempo enquanto minha pequena poupança feita durante os anos de UEPG se esgotam. E lá fui eu.
Nesse um ano de Bélgica (Zoersel, próximo da Antuérpia, segunda maior cidade do país) o plano é um só: não guardar dinheiro e torrar cada centavo em viagens!
NOSSA MAS COMO ASSIM VOCÊ NÃO VAI GUARDAR DINHEIRO PRA SUA PÓS?!
Meus anjos, eu guardo dinheiro desde que eu nasci, eu acho. Eu sou capricorniana! Quando eu era criança eu guardava minhas moedas pra comprar a mochila que eu queria pro ano escolar seguinte (lembro-me como se fosse ontem daquela mala de rodinhas jeans da Sandy & Junior), durante a graduação eu vendia canecas durante os jogos, dentre outros itens que faziam a alegria da comunidade acadêmica. Sempre me programei pra tudo, então acho que chegou a hora de me programar, no máximo, pras viagens que farei nos próximos três meses, e olhe lá!
Quem me conhece sabe que eu só falo abobrinha. Nesse blog eu vou tentar não fazer o uso de palavrões, mas não garanto.